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DER TERRORIST

"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.

Assalto às Finanças em Valpaços, greve geral no Porto e milho transgénico em Silves (I)

por josé simões, em 08.01.08

 

Seiscentos aldeãos encapuzados com máscaras negras entram em Valpaços em silêncio, sem um grito nem um viva, atravessam a vila até à repartição de Finanças. Um grupo arromba a porta, a buscar os livros das matrizes e toda a papelada oficial. Trazido tudo para a rua, aí foi banhado em petróleo e consumido pelo fogo. Assim como chegaram, partiram.
 
Aconteceu em Maio de 1909 e lembrei-me do episódio aquando do assalto ao campo de milho transgénico em Silves em Agosto de 2007. Ambos os casos estão marcados pelo tipo de intervenção política dos anarquistas. A minha fonte para o assalto à Fazenda de Valpaços foi João Campos Lima (1887 – 1956), um importante intelectual anarquista português, quase esquecido, como quase todos.
 
Os camponeses não sabiam ler nem escrever, mas a organização do evento foi, para Campos Lima, perfeita: encapuzados, nem mesmo se reconheceriam entre si; surpreenderam; cumpriram os objectivos; não foram capturados. «Esses lapónios que entraram em Valpaços e atacaram a Fazenda Nacional não têm nome nenhum, não são ninguém. Não pertencem a um partido nem têm credo político.» E acrescentava: «Só os levantamentos populares é que são organizados com perfeição, exactamente porque não requerem um longo preparo e nascem espontaneamente da massa, sem discursos e sem sugestionadores.»
 
O tipo de discurso é muito semelhante ao que envolveu o Verde Eufémia (VE). Não teve organização. O grupo apresentou-se como “informal” e formado dois dias antes, julgo que no acampamento da Ecotopia em Aljezur. O nome foi inventado para a ocasião. Logo depois, o VE extinguiu-se. Não teve líderes. Como escrevia Campos Lima em 1909, «os chefes dispensam-se por inúteis». Teve apenas um porta-voz, necessidade imposta pela implicação dos media. A acção do VE foi organizada, como o assalto a Valpaços, mas não implica uma organização do tipo partidário, a que quase sempre e quase todos os anarquistas têm sido avessos. Nos comunicados do VE e nas declarações do porta-voz, Gualter Batista, reconheceu-se o discurso dos libertários ou anarquistas.
 
(Continua)
 
Eduardo Cintra Torres na Atlântico de Janeiro.