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DER TERRORIST

"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.

Uma visão etnocêntrica; o Porto está doente?

por josé simões, em 14.12.07

 

Pacheco Pereira na Quadratura do Círculo limitou-se a amplificar aquilo que qualquer cidadão desprendido de provincianismos bacocos e de clubites agudas já havia constatado quando lê, ouve e vê as noticias. Assassinaram “fulano de tal” no Porto; que por acaso estava acompanhado de um elemento da claque dos Super Dragões. Assaltaram “não sei o quê” no Porto; por acaso o carro utilizado pelos assaltantes tinha sido emprestado por sicrano, elemento da claque dos Super Dragões. O vereador “não sei quantos” foi agredido barbaramente na rua; os presumíveis agressores são apontados como elementos da claque dos Super Dragões. Ele há cada coincidência!
 
Quanto às promiscuidades entre o PS Porto e Pinto da Costa, com negociatas de construção civil pelo meio; os processos envolvendo os ex Fernando Gomes e Nuno Cardoso falam por si. E o povo não é estúpido; só por isto se explicam bem 50% dos votos depositados em Rui Rio. Só não vê quem não quer ver.
 
Dizer isto não é denegrir o PS Porto, não é denegrir o FC do Porto, não é denegrir os portuenses. Dizer isto é manifestar preocupação pelo caminho que as coisas levaram e continuam a levar; e um militante socialista, um portista ferrenho, ou um portuense com ou sem clube, não sendo de modo algum novidade para eles o que Pacheco Pereira disse, ficam de certeza agradecidos pela chamada de atenção.
 
Há no entanto quem se entretenha a truncar as palavras dos outros e a tentar manipular descaradamente a opinião pública. Escreve hoje David Pontes, director-adjunto do Jornal de Notícias:
 
“As declarações de Pacheco Pereira em que ele estabelece uma ligação entre a sucessão de assassinatos de pessoas ligadas à noite, o F.C. Porto e o PS Porto seriam risíveis, apesar de insultuosas para as instituições visadas, se não reflectissem também uma visão etnocêntrica, que teima em reduzir os portuenses a portistas.”
 
A visão etnocêntrica está do lado do director-adjunto do JN. Alguém num jornal da capital, no seu perfeito juízo, se sentiria incomodado se hipoteticamente, onde se lê Super Dragões se lê-se Diabos Vermelhos ou Juve Leo? (Não vale os jornais do Benfica e do Sporting!).
 
E o etnocentrismo anda sempre por lá, camuflado; um código interiorizado, nas atitudes, nas palavras, até nos mais ínfimos e insignificantes acontecimentos. Um exemplo: durante a recente greve dos camionistas em Itália, os grevistas para matar o tempo resolveram eleger uma Miss Greve. Ganhou uma portuguesa. Pensava eu quando li os jornais italianos, e os portugueses sedeados em Lisboa. Hoje ao ler o JN fiquei a saber que quem afinal ganhou a eleição foi uma “camionista portuense”…
 
Isto do etnocentrismo, e de determinada elite política/desportiva/cultural do Porto cidade pretender um estado de excepção para a região, uma ideia de autonomia quase a roçar a independência, nem que para isso feche convenientemente os olhos a promiscuidades mais que duvidosas envolvendo o sub mundo, e finja não perceber o que está na origem das recentes nomeações de procuradores de Lisboa para o processo Apito Dourado e os mais recentes casos de criminalidade associada à diversão nocturna, já foi chão que deu uvas.
 
Ou como disse Rui Rio: “Mesmo que Lisboa consiga responder agora ao que o Porto não conseguiu responder, é preciso, depois, saber por que é que o Porto não foi capaz de responder” (negrito meu). Eu, pela parte que me toca, já percebi.
 
Se o Porto não tiver respeito por si próprio, quem é que vai ter?
 
Nota: O escriba escreve a partir de Setúbal.
 
(Foto via Wellcome Library)