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DER TERRORIST

"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.

Rankings; esquerda / direita e falsas questões

por josé simões, em 31.10.07

 

E de cada vez que o ranking é publicado volta a polémica e a discussão sobre os defeitos e as virtudes; escola pública vs. escola privada. Isto dura uma semana, no máximo duas e depois tudo volta à normalidade. Até para o ano.
 
A minha escola, que é agora a escola da minha filha; uma escola pública, ficou em 23.º lugar no famigerado ranking, (Link aqui), e fazendo um exercício de “sociologia de bolso” igual ao efectuado por Rui Tavares (aqui) para tentar seguir o rasto do pessoal daquela época, constato que, e logo à cabeça, encontro um treinador de futebol considerado “” como o melhor do mundo, um actor do Teatro Nacional D. Maria II, um director de um jornal diário, por sinal o de maior tiragem nacional, actores de várias companhias e que não passa um dia que não tenha que gramar com eles em telenovelas e anúncios de cada vez que ligo a televisão, um encenador, mais uma repórter de uma televisão privada, e um sem fim de outros anónimos, mas não menos importantes, que vão desde professores, passando por engenheiros mesmo engenheiros, a gestores de empresas privadas.
 
Não é por aí que vamos lá. Ainda para mais se a este exercício somarmos outro, que Paulo Portas classifica como o complexo da esquerda “entretendo-se demasiado a perceber” contextos sociais e responsabilidades do Estado, e quisermos contextualizar Setúbal nos finais da década de 70 princípios de 80 do século passado, com greves, encerramentos de empresas, desemprego, fome, mais bandeiras negras na cidade “vermelha”, o bispo D. Manuel Martins e o diabo a sete.
 
Neste “Pingue-Pongue” que diariamente Rui Tavares mantém na última página do Público com Helena Matos, escreve esta no passado dia 29: “Em que escola estavas quando foi o 25 de Abril? Em que escola estão os teus filhos? À célebre pergunta “Onde é que estavas no 25 de Abril?” é imperioso que se juntem agora estas duas interrogações. Experimente-se por exemplo fazer estas perguntas aos ministros, deputados, autarcas, assessores, artistas, professores… e descobrir-se-á que a maior parte deles frequentou o ensino público, mas optou pelo ensino privado na hora de inscrever os seus filhos e netos na escola. Não porque os seus filhos sejam mais ou menos inteligentes, mas simplesmente porque têm medo que a falta de exigência embruteça.”
 
Vamos então apontar e com justiça o dedo à esquerda e à febre do PREC, mais a luta de classes e a pulsão igualitária, e uma tentativa de tudo nivelar (e por baixo!) a começar pelo ensino. Acaba-se com a divisão entre Liceus e Escolas Comerciais e Industriais com a invenção do ensino unificado. Agora todos podiam ser doutores e engenheiros e foi o que se viu e o que se vê, tenta-se agora corrigir com os cursos de formação profissional; do mal, o menos. Mas a direita não fica isenta de culpas no cartório. É que não sei se já repararam quem esteve maioritariamente no poder desde a revolução de Abril até hoje… foi exactamente a mesma direita que agora grita e esbraceja e nada fez para alterar o rumo das coisas enquanto foi poder. Por aqui ficamos conversados.
 
(E até podia ter aqui uma tirada à Álvaro Cunhal, e dizer que foi assim porque lhe convinha, de forma a desacreditar o ensino público na opinião pública e abrir caminho aos privados).
 
Neste “Pingue-Pongueescola pública / escola privada, não só entre Rui Tavares e Helena Matos, mas alargado à generalidade da sociedade, com escolha das escolas pelas famílias, mais o cheque-educação e subvenções estatais a escolas privadas e sei lá que mais, recorro outra vez a Helena Matos no “Pingue-Pongue” de hoje: “Não sei como (…) se explicará que, uma vez na faculdade, as mesmas famílias optem sempre que possível pelo ensino público (…)”.
 
Ora aí está; o dedo na ferida! Pela mesma razão que a Faculdade de Direito não dá Medicina e vice-versa, nem existem cursos de Arquitectura no Técnico. A isto chama-se especialização. Houve uma altura, e foi o meu caso, em que quem queria seguir a Área Jornalismo tinha uma única hipótese em Setúbalo Liceu, independentemente de residir ou não na área da escola. Mas desconfio que não seja esta a ideia de Helena Matos. Assim como também desconfio da esquerda que embarca e vai a reboque da agenda da direita para a educação, e desata a discutir falsas questões como o são o direito das famílias a escolher as escolas. Depois queixem-se de como que por artes mágicas sejam as escolas a escolher as famílias. Estou mesmo a ver quem, aqui em Setúbal, iria a correr matricular os seus filhos na escola do Bairro da Bela Vista
 
(Foto de Paul Preece para o Guardian)
 

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