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DER TERRORIST

"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.

Che Guevara na Atlântico

por josé simões, em 03.10.07

 

Declaração de interesses: Este blogue não é Guevarista. Nem tão pouco Castrista, Bolivarista, Chavista ou outro qualquer “Ista” Latino-Americano, Anglo-Saxónico ou o diabo que o valha.
 
Li com interesse e agrado o artigo sobre Che Guevara que Rui Ramos assina na Atlântico deste mês. (Leiam que vale a pena).
 
Aparte pontuais discordâncias de análise do ponto de vista ideológico, nada a apontar no que respeita aos factos. Arrisco mesmo dizer que só por isso nem valia a pena ter escrito o artigo, porque não acrescenta nada de novo ao que já se sabe.
 
Retenho-me no entanto na introdução ao artigo, quando Rui Ramos escreve: “Há 40 anos, a 10 de Outubro de 1967, o mundo viu finalmente o seu cadáver, deitado numa maca, com os olhos entreabertos, vidrados. (…). Com ele, no sul da Bolívia, morria a grande ilusão castrista de revolucionar o continente a partir de uma ilha das Caraíbas protegida pelos soviéticos.”
 
Rui Ramos comete, a meu ver, um pecado capital (consciente ou inconscientemente, não sei): ao longo das quatro páginas que compõem o artigo, nem um só paragrafo para situar os leitores na América Latina das décadas de 50 / 60 do sec. XX, nem para enquadrar o fenómeno Che / Castro no labirinto de ditaduras militares que governavam o continente, do México até à Argentina, com o alto patrocínio dos Estados Unidos sob um álibi perfeito – a Guerra-fria e a luta contra o Comunismo.
Partindo da máxima “Fomismo (de fome) é Comunismo”, as sucessivas administrações Norte-Americanas meteram o pé na poça e fizeram asneira da grossa, ao incentivar e apoiar sem escrúpulos, todo o tipo de ditaduras sanguinárias e corruptas que durante meio século governaram (?) o continente. Se não tivessem como lema que, aqueles países exóticos, produtores de bananas, cheios de mulheres baratas e muita praia para passar as férias, – que, infelizmente era assim que os americanos viam Cuba –, eram o seu quintal da frente (ou das traseiras?), e tivessem deixado seguir normalmente o rumo das coisas, talvez neste momento – porque nestas matérias em história só se pode especular – não se assistisse à tomada de poder pela via eleitoral, de toda uma corja de potenciais candidatos a ditadores de inspiração Guevarista. A “febre” da revolução já lhes tinha passado. Venezuela, Equador, Bolívia, Nicarágua são antes do mais a falência das políticas patrocinadas pelos Estados Unidos na região, e, a prova – ironia suprema – que Che e Fidel conseguiram o que sempre ambicionaram, e pela via das urnas (!), mesmo que depois de mortos.
 
“Esta é a história de um fracasso” – assim começou Guevara o seu relatório da expedição ao Congo, em 1965”, escreve Rui Ramos. Caro Rui Ramos, talvez tenha chegado a hora de reescrever o diário de Che, porque cada vez mais me parece ser esta “A história de um sucesso” para os semeadores da revolução, e que, por linhas tortas, se começou a escrever no dia em que os Estados Unidos decidiram patrocinar a primeira ditadura militar latino-americana.
 
(Fotos via El Mundo)

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