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DER TERRORIST

"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.

O Partido "mais portugês de Portugal"

por josé simões, em 01.10.07

 

Não deixa de ser interessante esta coisa do “mais português de Portugal”, como que a evocar um certo Portugal – que apesar da progressiva e irreversível integração europeia teima em desaparecer –, e a transportar-nos para os primeiros anos da consolidação de Salazar à frente do país; tempos da criação duma certa mitologia lusitana, cujo paradigma é a humilde casinha “” na aldeia, ícone da pureza, integridade rural, e da “alma pátria”, contraponto aos grandes centros urbanos e às cidades, mães de todos os desvios e de todos os perigos e depravações.
 
Este imaginário colectivo que Salazar muito bem soube identificar e perceber numa primeira fase – lembram-se das “aldeias mais portuguesas de Portugal”? -, foi numa segunda fase incentivado e patenteado, com o fomento a um determinado tipo de arquitectura e urbanismo, surgido nas capitais de distrito nas décadas de 50 e 60 do século XX, com a construção de bairros de habitação subsidiados pelo Estado via Caixa de Previdência, e que, mais não eram que uma tentativa de decalque da aldeia-mãe na cidade. Obedeciam sempre a um padrão comum a todos – construção com o centro da vida social e bairrista ao redor de uma praça com uma igreja, e proximidade de uma escola que, podia ou não ser comum a mais de um bairro; a inclusão de um pequeno quintal em cada habitação, e não raro, os blocos de edifícios / moradias serem habitados por trabalhadores da mesma fábrica ou corporação. Este tipo de arquitectura e intervenção urbana teve numa primeira fase e no que concerne à forma, Raul Lino a sua obra Casas Portuguesas como fonte de inspiração e imagem de marca. Posteriormente, sábia e inteligentemente aplicada por Paulino Montez no bairro da Encarnação em Lisboa, que viria a fazer escola pela via dos sucessivos clones que proliferaram de norte a sul do país, como o já extinto bairro de Nossa Senhora da Conceição em Setúbal.
 
(A este propósito veja-se como o mito da ruralidade do Estado Novo ainda prevalece na cultura e na tradição portuguesa quando em épocas festivas se assiste a um autentico êxodo das grandes cidades em direcção ao interior; o célebre “ir à terra”.)
 
Mas não era a arquitectura do Estado Novo a razão deste post. Serviu apenas como introdução para mais um rescaldo às directas no PSD. Assim, no partido que apesar de não existir enquanto tal, foi o que melhor fez a transição da ditadura para a democracia, quer pela via dos seus fundadores, todos ligados à ala liberal no marcelismo, quer no modo em como absorveu sem convulsões todo o tipo de personagens mais ou menos ligadas ao Estado Novo, desde o cidadão anónimo até a uma miríade de pequenos e médios comerciantes e industriais, proprietários rurais e caciques que viriam mais tarde a estar na génese dos famosos barões do PPD; num partido híbrido e sem ideologia; num partido que faz ponto de honra em dizer que é o “mais português de Portugal”, era de esperar outra coisa que não a vitória de um Luís Filipe de Menezes numas eleições directas? Não terão sido antes as elites, malgrado o espectáculo mediático de cada congresso, quem sempre desvirtuou o partido e o afastou dessa sua ligação umbilical ao Portugal profundo?

 

 

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