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DER TERRORIST

"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.

Chico-espertismo

por josé simões, em 23.11.06
“Eles comem tudo,
Eles comem tudo,
Eles comem tudo e não deixam nada…”
 
Refrão de uma canção de José Afonso
 
 
Já por aqui tinha escrito sobre as relações pouco claras no famoso triangulo “Câmaras Municipais / Construtores Civis / Futebol” a propósito da contestação à nova Lei das Finanças Regionais.
E como que a fazer prova de vida, assiste-se ao regresso do triangulo na máxima força, se bem que sem o vértice futebol; até ver e até prova em contrário.
 
A Câmara Municipal de Lisboa – apesar dos pedidos do Governo – aprovou um loteamento para uma urbanização que poderá colidir com o traçado do TGV e da nova ponte sobre o rio Tejo, Barreiro / Chelas.
 
A proposta foi levada a votação pela vereadora do urbanismo e passou com os votos contra de toda a oposição, abstenção de Maria José Nogueira Pinto, favoráveis do PSD e voto de qualidade de Carmona Rodrigues; apesar de a projectada urbanização violar o PDM em vigor, o que por si só já seria motivo suficiente para reprovação.
 
Em face disto, resta ao Governo tomar as chamadas “medidas preventivas” para impedir a operação urbanística, não inviabilizando de qualquer modo que o promotor do empreendimento venha a reivindicar direitos adquiridos e uma indemnização que poderá ser superior a 60 milhões de euros (!).
 
Jackpot sem jogar no euro milhões.
 
O cidadão comum, quando é chamado a eleger uma administração autárquica – ou outra – espera que ela sirva para solucionar problemas e não para os inventar onde não existem; e espera que tome medidas de governação límpidas e transparentes para o bom funcionamento das urbes, onde o beneficiário seja o colectivo e nunca o individual.
 
O que se assiste, é que a ganhar aqui, já existe um: Lismarvila do Grupo Obriverca.
Lesados: Todos os cidadãos de Lisboa, por uma clara violação do seu PDM, e todos os cidadãos contribuintes do País pelo óbvio encarecimento do TGV ao nível dos custos.
 
Depois da secretária de Estado dos Transportes, Ana Vitorino, ter pedido na Assembleia da Republica solidariedade institucional ao município de Lisboa para que o loteamento não fosse aprovado, é no mínimo “estranho” a ligeireza com que tudo se encaminhou; sabendo-se de antemão quais as implicações que daí adviriam, quer a nível das medidas a tomar pelo Governo, quer ao nível de verbas e valores em jogo a haverem indemnizações.
Haverá mais algum / alguns beneficiários escondido(s)?
 
Até quando o suposto benefício de alguns se irá sobrepor ao inquestionável benefício colectivo, é uma questão que urge levantar.
 
É por esta e outras como esta que Duarte Pacheco deixa saudades.
Alguém ainda se recorda de como lidou com os proprietários dos terrenos que se interpunham no caminho da primeira ponte sobre o Tejo?
 
Bem sei que se vivia numa ditadura, mas não haverá mecanismo legal em democracia que acabe de vez com este Chico-espertismo autárquico/ construtor?
O povo agradecia.