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DER TERRORIST

"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.

Ainda há quem aposte em distorcer e moldar a História (V)

por josé simões, em 31.08.07
“Esta guerra não é como as do passado. Quem quer que ocupe um território logo lhe impõe o seu próprio sistema social. Todos impõem o seu sistema até onde puderem ir os seus exércitos. Não pode ser de outra maneira.”
 
In: Conversas com Estaline de Milovan Djilas.
A propósito desta interpretação simplista da história por Correia da Fonseca, para consumo interno no Partido, e, perdoem-me a expressão, mas é mesmo disso que se trata – doutrinar as camadas da sociedade mais ignorantes dos factos e acontecimentos da nossa história recente – vou aqui recuperar alguns excertos de um trabalho de Tony Judt. Pela sua extensão será publicado em vários posts.
 
Tony Judt, britânico, formado em Cambridge e na École Normale Supérieure, professor de História em Cambridge, Oxford e na Universidade de Berkeley, leccionando actualmente na Universidade de Nova Iorque a cadeira de Estudos Europeus, colunista na New York Review of Books, Times Literary Supplement, The New Republic, entre outros, escreve na sua obra Pós-Guerra – História da Europa desde 1945, editada em Portugal pelas edições 70, a propósito da divisão da Alemanha em dois estados (quinto post):
 
“Deve se claro a partir deste relato que pouco se ganha em perguntar «quem começou a Guerra Fria?» Na medida em que o objecto das Guerra Fria era a Alemanha, o resultado final, um país divido, era provavelmente aquele que todos julgavam preferível a uma Alemanha unida contra eles. Ninguém planeara este resultado em Maio de 1945, mas poucos estariam profundamente descontentes com ele. Alguns políticos alemães, nomeadamente o próprio Konrad Adenauer, ficaram mesmo a dever a sua carreira à divisão do seu país: tivesse a Alemanha continuado com quatro zonas ou um país unificado e seria quase certo que um obscuro político local da Renânia católica, situada na longínqua fronteira ocidental a Alemanha, não conseguiria alcançar o topo.
Porém, dificilmente Adenauer poderia fazer seu o objectivo de uma Alemanha dividida, por muito que o acolhesse bem em privado. O seu principal opositor nos primeiros cinco anos da República Federal, o social-democrata Kurt Scumacher, era um protestante da Prússia Ocidental e um defensor incansável da unidade da Alemanha. Ao contrário de Adenauer, ele teria rapidamente aceite uma Alemanha neutral como preço a pagar por um Estado alemão unificado que era o que Estaline parecia estar a propor. Aliás, nessa altura, a posição de Scumacher era provavelmente a mais popular na Alemanha, razão por que Adenauer tinha que agir com cuidado e assegurar que a responsabilidade por uma Alemanha dividida recaía inteiramente sobre as forças ocupantes.
Em 1948, os Estados Unidos, tal como a Grã-Bretanha, não viam com maus olhos a emergência de uma Alemanha dividida e com uma influência americana dominante no maior segmento, o ocidental. Mas, embora tivesse havido alguns, como George Kennan, que anteciparam com perspicácia este resultado (já em 1945 chegara à conclusão de que os Estados Unidos da América «não podiam fazer outra coisa senão conduzir a sua parte da Alemanha (…) para um tipo de independência tão próspero, tão seguro, tão superior que o Leste não a pudesse ameaçar»), foram uma minoria. No decurso destes anos, os Americanos, tal como Estaline, andaram a improvisar. É por vezes sugerido que algumas decisões e declarações cruciais americanas, nomeadamente a doutrina Truman de Março de 1947, precipitaram o abandono de uma posição de compromisso por parte de Estaline, a favor da rigidez, e que, neste sentido, a responsabilidade pelas divisões europeias era imputável à insensibilidade de Washington ou, pior ainda, à sua calculada intransigência. Todavia, não foi isso que aconteceu.
É que a doutrina Truman, para tomar este exemplo, teve muito pouco impacto nas opções soviéticas. O anúncio de Truman ao Congresso, em 12 de Março de 1947, de que «deve ser política dos Estados Unidos apoiar os povos livres que resistem às tentativas de dominação de minorias armadas ou por pressões externas», era uma resposta directa à incapacidade de Londres continuar a ajudar a Grécia e a Turquia, depois da crise económica britânica de Fevereiro de 1947. A América tinha de assumir o papel da Grã-Bretanha. Truman procurou por isso que o Congresso aprovasse um aumento de 400 milhões de dólares do seu orçamento de ajuda ao exterior. Para assegurar o financiamento, apresentou o pedido no contexto de uma crise de revolta comunista.
O Congresso acreditou nele, mas Moscovo não. Estaline não estava grandemente interessado na Grécia ou na Turquia, os principais beneficiários do pacote de ajuda, e compreendeu perfeitamente que a sua própria esfera de interesses provavelmente não seria afectada pela exibição de Truman para a plateia. Pelo contrário, continuou a pensar que havia muito boas perspectivas de uma divisão no campo ocidental, de que a assunção das antigas responsabilidades britânicas no Mediterrâneo Oriental pelos Americanos era o sinal e percursor. Independentemente do que levou Estaline a ajustar os seus cálculos na Europa de Leste, não foi seguramente a retórica da política interna americana. (Em Setembro de 1947, Andrej Zdanov, falando como sempre pelo seu senhor, informaria os delegados do congresso fundador do Comimform que a doutrina Truman se dirigia pelo menos tanto contra a Grã-Bretanha como contra a URSS, «porque significa a expulsão da Grã-Bretanha da sua esfera no Mediterrâneo e no Próximo Oriente»).” (Continua).