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DER TERRORIST

"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.

Ainda há quem aposte em distorcer e moldar a História (III)

por josé simões, em 29.08.07
“Esta guerra não é como as do passado. Quem quer que ocupe um território logo lhe impõe o seu próprio sistema social. Todos impõem o seu sistema até onde puderem ir os seus exércitos. Não pode ser de outra maneira.”
 
In: Conversas com Estaline de Milovan Djilas.
A propósito desta interpretação simplista da história por Correia da Fonseca, para consumo interno no Partido, e, perdoem-me a expressão, mas é mesmo disso que se trata – doutrinar as camadas da sociedade mais ignorantes dos factos e acontecimentos da nossa história recente – vou aqui recuperar alguns excertos de um trabalho de Tony Judt, que pela sua extensão será publicado em vários posts.
 
Tony Judt, britânico, formado em Cambridge e na École Normale Supérieure, professor de História em Cambridge, Oxford e na Universidade de Berkeley, leccionando actualmente na Universidade de Nova Iorque a cadeira de Estudos Europeus, colunista na New York Review of Books, Times Literary Supplement, The New Republic, entre outros, escreve na sua obra Pós-Guerra – História da Europa desde 1945, editada em Portugal pelas edições 70 a propósito da divisão da Alemanha em dois estados (terceiro post):
 
"No entanto, estava a tornar-se evidente que as quatro potências ocupantes não se aproximavam de um acordo. Uma vez terminado o principal julgamento de Nuremberga, em Outubro de 1946, e finalizados os termos dos tratados de paz de Paris no mês seguinte, os aliados de guerra estavam unidos por pouco mais do que a sua co-responsabilidade pela Alemanha, cujas contradições passaram cada vez mais para o primeiro plano. No fim de 1946, os Americanos e os Britânicos concordaram em reunir as economias das suas zonas de ocupação numa chamada «zona dupla, mas mesmo isto não significava ainda uma divisão assente da Alemanha e muito menos um compromisso com a integração da zona dupla no Ocidente. Pelo contrário, três meses depois, em Fevereiro de 1947, os Franceses e os Britânicos assinaram ostensivamente o tratado de Dunquerque em que se comprometiam a uma ajuda mútua em caso de qualquer agressão alemã no futuro. Por outro lado, no início de 1947, o secretário de Estado americano Marshall estava ainda optimista quanto a não ser necessário dividir a Alemanha, independentemente dos acordos que fossem feitos para resolver a difícil questão da economia alemã. Sobre isto, pelo menos, o Leste e o Ocidente estavam ainda formalmente de acordo.
A ruptura efectiva aconteceu na primavera de 1947, no encontro dos ministros dos Negócios Estrangeiros dos estados Unidos, da Grã-Bretanha, da França e da União Soviética, realizado em Moscovo, entre 10 de Março e 24 de Abril, e convocado uma vez mais para tentar um acordo sobre o tratado de paz com a Alemanha e a Áustria. Nesta altura as linhas de fractura eram nítidas. Os Britânicos e os Americanos estavam determinados a erguer a economia da Alemanha Ocidental para que os Alemães pudessem sustentar-se a si mesmos, mas também para contribuir para o restabelecimento da economia europeia em geral. Os representantes soviéticos pretendiam o restabelecimento das indemnizações a pagar pelas zonas da Alemanha sob controlo ocidental e com essa finalidade foi encarada a hipótese de uma administração e de uma economia alemãs unificadas tal como eram as perspectivas de início (se bem que de forma vaga) em Postdam. Porém, agora os Aliados ocidentais já não queriam estabelecer uma administração alemã unificada, porque ela implicaria não só o abandono da população das zonas ocidentais da Alemanha – o que era neste momento uma consideração política válida em si mesma –, mas, de facto, a entrega do país à esfera de controlo soviética, da a assimetria militar existente.
Como reconheceu Robert. K. Murphy, conselheiro político do governo militar dos Estados Unidos na Alemanha, «foi a conferência de Moscovo, em 1947 (…) que realmente fez descer a cortina de ferro». Ernest Bevin abandonara qualquer esperança séria de acordo sobre a Alemanha antes mesmo de chegar a Moscovo, mas para Marshall (e Bidault) este foi o momento da definição. Sem dúvida, foi-o também para Estaline e Molotov. Quando os quatro ministros dos Negócios Estrangeiros se voltaram a encontrara, em Paris, entre 27 de Junho e 2 de Julho, para discutir o radicalmente novo plano de Marshall, os Americanos e os Britânicos haviam já concordado, em 23 de Maio, em permitir que a Alemanha estivesse representada no recém-criado «Conselho Económico» para a Zona Dupla, o prelúdio embrionário de um governo alemão ocidental." (Continua).