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DER TERRORIST

"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.

Ainda há quem aposte em distorcer e moldar a História (II)

por josé simões, em 28.08.07
“Esta guerra não é como as do passado. Quem quer que ocupe um território logo lhe impõe o seu próprio sistema social. Todos impõem o seu sistema até onde puderem ir os seus exércitos. Não pode ser de outra maneira.”
 

In: Conversas com Estaline de Milovan Djilas

A propósito desta interpretação simplista da história por Correia da Fonseca, para consumo interno no Partido, e, perdoem-me a expressão, mas é mesmo disso que se trata – doutrinar as camadas da sociedade mais ignorantes dos factos e acontecimentos da nossa história recente – vou aqui recuperar alguns excertos de um trabalho de Tony Judt que pela sua extensão será publicado em vários posts.
 
Tony Judt, britânico, formado em Cambridge e na École Normale Supérieure, professor de História em Cambridge, Oxford e na Universidade de Berkeley, leccionando actualmente na Universidade de Nova Iorque a cadeira de Estudos Europeus, colunista na New York Review of Books, Times Literary Supplement, The New Republic, entre outros, escreve na sua obra Pós-Guerra – História da Europa desde 1945, editada em Portugal pelas edições 70 a propósito da divisão da Alemanha em dois estados (segundo post):
 
"A estratégia anglo-americana era ditada por considerações de prudência política. Se os Alemães da zona ocidental de ocupação permanecessem dominados e empobrecidos e se não lhes fosse oferecida uma oportunidade de melhorar, nesse caso voltar-se-iam mais cedo ou mais tarde para o nazismo ou então para o comunismo. Portanto, nas zonas da Alemanha que estavam ocupadas pelos governos militares americano e britânico, a ênfase mudou logo nos primeiros tempos para a reconstrução das instituições cívicas e políticas e para a atribuição aos alemães de algumas responsabilidades nos seus assuntos internos. Isto deu aos políticos alemães em emergência uma influência muito maior do que aquela que podiam ter esperado quando a guerra terminou, e não hesitaram em explorá-la, dando a entender que a menos que os ocupantes seguissem os seus conselhos, não poderiam responder pelo alinhamento futuro da nação alemã.
Felizmente para os Aliados ocidentais, as políticas de ocupação comunistas em Berlim e nos territórios do Leste da Alemanha ocupados pelos Soviéticos não eram de molde a atrair os sentimentos nem os votos alemães. Por muito impopulares que os Americanos, os Ingleses ou os franceses fossem aos olhos dos ressentidos Alemães, a alternativa era bem pior: se Estaline pretendia genuinamente que a Alemanha permanecesse unida, tal como ordenara aos comunistas alemães que o exigissem nos anos iniciais do pós-guerra, então a táctica soviética era muitíssimo mal escolhida. Desde o início, os Soviéticos estabeleceram de facto na sua zona de ocupação um governo de liderança comunista sem o consentimento aliado e começaram a tornar supérfluos os acordos de Postdam, retirando e desmantelando implacavelmente tudo o que caiu nas suas mãos.
Não é que Estaline tivesse muitas alternativas. Nunca houve qualquer perspectiva de os comunistas controlarem o país ou mesmo a zona soviética, a não ser pela força. Nas eleições para a cidade de Berlim, em 20 de Outubro de 1946, os candidatos comunistas ficaram muito atrás tanto dos social-democratas como dos democratas-cristãos. Em resultado, a política soviética endureceu de forma perceptível. No entanto, nessa altura os ocupantes ocidentais enfrentavam as suas próprias dificuldades. Em Julho de 1946, a Grã-Bretanha vira-se forçada a importar 112 000 toneladas de trigo e 50 000 toneladas de batatas para alimentar a população da sua zona (o Noroeste urbano e industrial da Alemanha), pagas com um empréstimo americano.
O Britânicos estavam a receber no máximo 29 milhões de dólares de indemnizações da Alemanha, mas a ocupação custava a Londres 80 milhões de dólares por ano, deixando ao contribuinte britânico o pagamento das despesas correspondentes à diferença, a mesmo tempo que o respectivo governo se via forçado a impor racionamento do pão no seu próprio país (um expediente que fora evitado durante a guerra). Na opinião do chanceler britânico do Tesouro, Hugh Dalton, os Britânicos estavam «a pagar indemnizações aos Alemães». Os americanos não estavam sujeitos às mesmas restrições económicas e a sua zona não tinha sofrido tantos estragos de guerra, mas a situação não lhes parecia menos absurda. O exército americano, em particular, não estava nada satisfeito, pois o custo de alimentar milhões de Alemães esfomeados recaía sobre o seu próprio orçamento. Como disse George Kennan: «a rendição incondicional a Alemanha (…) deixou-nos toda a responsabilidade por uma parte a Alemanha que nunca foi auto-suficiente do ponto de vista económico nos tempos modernos e cuja capacidade de se sustentar foi catastroficamente reduzida pelas circunstâncias da guerra e pela derrota alemã. (…)».
Confrontados com este problema e com o crescente ressentimento alemão devido ao desmantelamento de fábricas e instalações para serem enviadas para leste, o governador militar dos Estados Unidos, o general Clay, suspendeu unilateralmente as entregas de indemnizações da zona americana à União Soviética (ou a quem quer que fosse) em Maio de 1946, dizendo que as autoridades soviéticas não cumpriram a sua parte dos acordos de Postdam. Os Britânicos fizeram o mesmo dois meses mais tarde. Estes factos assinalaram o primeiro afastamento, mas não mais do que isso. Os Franceses, tal como a URSS, ainda queriam indemnizações e os quatro aliados estavam ainda formalmente obrigados a cumprir o acordo sobre «níveis de indústria», de 1946, segundo o qual a Alemanha deveria manter um nível de vida que não fosse superior à média europeia (excluindo a Grã-Bretanha e a União Soviética). Para além disso, o governo britânico, num conselho de ministros de Maio de 1946, ainda tinha relutância em aceitar uma divisão formal da Alemanha ocupada em duas metades, a oriental e a ocidental, com todas as implicações que isso teria para a segurança europeia. (Continua).