"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.
Uma fábrica destruída em Leiria que pode fazer parar a Porsche na Alemanha e, quando era de esperar o alegado ministro da Economia a mexer-se asap, a desdobrar-se em contactos, a assegurar com a casa mãe a produção em Portugal quando tudo regressar à normalidade para salvar empregos, temos o ministro Leitão Amaro a apagar vídeos de propaganda pagos com o dinheiro do contribuinte, que foram parar à net por culpa de terceiros que ele não teve nada a ver com isso. Ou se calhar estamos a ser injustos e Castro Almeida está no terreno a vistoriar a entrega de gasóleo pelos motoristas dos ministérios de forma a que os geradores de emergência não falhem, como fez durante o 'apagão'.
[Na imagem, Ramalho Eanes, em Évora, a dar literalmente o corpo às balas durante a campanha eleitoral de 1976 vs. o taberneiro, em Setúbal, a fugir de uma caixa de chicletes nas legislativas de 2021]
A zona centro do país revirada do avesso: casas, infra-estruturas, serviços públicos; sem água, luz, comunicações, internet. Ministério da Administração Interna não existe. Ou então existe e está a dedicar 70% do seu tempo a resolver os problemas, como a sua colega da Saúde. Ou seja, anda à nora feita barata tonta. O primeiro-ministro visita Leiria e gagueja enquanto inventa em directo para as câmaras de televisão e "o Governo vai avaliar", a fazer um esforço tremendo para conter aquele permanente sorriso de gozo na cara. Santana Lopes, na Figueira da Foz, lamenta não ter sido contactado por ninguém, nem do Governo nem da Presidência, só por António José Seguro, candidato presidencial, que visitou Leiria sem dar badalo a ninguém, um dia antes do primeiro-ministro, e do outro candidato, o taberneiro, que mobilizou tudo o que era televisão para o circo. Para grande surpresa nossa não foi visto a amanhar um telhado ou a endireitar um poste de alta tenção. Ainda no registo presidencial, tempo ouve em que Marcelo, durante as catástrofes, estava em todo o lado ao mesmo tempo, acampado nas televisões, a pressionar ministros. Agora está de abalada, com a sua mission accomplished de deixar o país entregue aos seus. Imaginemos estes incompetentes à frente do país durante a Covid, imaginemos. Porque pode ser pior, um terramoto como o de 1755, uma guerra. Imaginemos.
Depois de no verão passado ter andado a apagar umas brasas que ateou para as televisões e para os fiéis e apóstolos que acreditam em tudo o que diz, o próximo clip de propaganda do taberneiro podia ser em Leiria a arranjar um telhado ou a endireitar uma torre da EDP derrubada por causa do Kristin, o taberneiro que se lembrou do mau tempo depois de ter ouvido Seguro lamentar as mortes e ponderar visitar as zonas afectadas.
O debate ficou decidido 15 minutos antes de começar. Seguro chegou, evocou António Chainho, grande vulto da música e da cultura portuguesa, lamentou a morte do alferes dos rangers, manifestou solidariedade com os afectados pelo mau tempo. O taberneiro chegou, falou de Seguro, falou de Seguro, tornou a falar de Seguro, acenou para uma claque de hooligans que tinha na porta, entrou, teve uma entrevista rápida, falou de Seguro, voltou-se para a porta e acenou novamente para os hooligans acampados na entrada.
Um "inquérito online" sobre "quem acha que vai ganhar", não sobre a intenção de voto, sobre quem acha que vai ganhar, sem ficha técnica, se calhar feito entre as contas anónimas, bots, e os 20 mil perfis falsos criados pelo partido da taberna nas redes sociais. "Fonte: diário.bix.pt", assim mesmo, com acento no "a" e tudo, uma coisa que não existe. A arte do mentiroso compulsivo, e rei da desinformação, consiste em conseguir parecer ser tão burro como os que o seguem de modo a que eles se julguem tão inteligente quanto ele.
O taberneiro, eufórico em cima do estrado, no hotel na noite do rescaldo da primeira volta, que a direita não tinha perdido, tinha ganho as eleições, era só fazer contas de somar: ele + o Cotrim + o Mendes e, se calhar, + o almirante = "para o infinito e mais além", que agora é ele o líder da direita, vão ver como elas doem.
Com o passar dos dias António José Seguro vai arrecadando apoios atrás de apoios, vindos da entourage da conta de somar feita de cabeça na cabeça do taberneiro, e afinal o taberneiro já não quer saber daqueles apoios para nada, os mamões dos sistema, quer é o apoio do pagode.
E com o passar dos dias o taberneiro vê António José Seguro líder da direita, sem o pedir. E no próximo rescaldo vamos ver onde, e como, o taberneiro, o artista de variedades, vai encaixar o nicho de apoio do pagode, contra as elites, depois de três semanas a chorar por ele.
Sócras, aquele em quem o taberneiro admitiu ter votado, acabou com o regime de subvenções mensais vitalícias para titulares de cargos políticos, as mesmas subvenções mensais vitalícias para titulares de cargos políticos que o taberneiro se propõe acabar caso seja eleito Presidente da República, como se isso fosse pelouro atribuído ao Presidente da República, e que para sublinhar a mama xuxalista dá como exemplo Sócras, o manhoso, o bandido, e Armando Vara, amigo de Sócras, o bandido, o manhoso. O taberneiro, licenciado em Direito, doutorado em Direito Público, que sabe perfeitamente que Vara , amigo do Sócras, e Sócras, o bandido, o manhoso, recebem subvenções mensais vitalícias para titulares de cargos políticos porque as leis não têm efeitos retroactivos, um dos princípios do Estado de direito democrático. Mas a carneirada acéfala não sabe e o taberneiro sabe que a carneirada acéfala não sabe e isso é que conta.