"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.
Começou a financiar Franz-Joseph Strauss da CSU e o FDP, depois passou para o Liga dos Cidadãos Livres, já vai lançado na AfD e em Beatrix von Storch. Obviamente que a direita não tem nada a ver com a extrema-direita nem com o fascismo. E ai de quem os meter no mesmo saco, vem logo a Lei do Godwin e o caralho. A Lei de Godwin que não existe para quando a direita, por tudo e por nada e por dá cá aquela palha, chama Estaline e Trotsky para qualquer troca de argumentos com alguém por levemente que se situe à esquerda.
A guerra ao Tribunal Constitucional foi só a face mais visível de todo um programa que começou com o projecto de revisão constitucional de Pedro Teixeira Pinto escondido à pressa no fundo da gaveta mais funda mas que por descuido ia caindo para a opinião pública [é mais fácil apanhar um mentiroso que um coxo] nas mui famosas tiradas de Passos Coelho, sem papel e embalado no popular "tem gosto o burro em ouvir o seu zurro", para um país atordoado por doses maciças de austeridade: "É minha profunda convicção que não é a Constituição que nos impede de reformar o Estado" ou "Já alguém perguntou aos mais de 900 mil desempregados do que lhes valeu a Constituição?".
O saque ao património comum em nome do crescimento económico e da criação de riqueza nos bolsos de alguns:
"Lançado quando Jorge Moreira da Silva era ministro do Ambiente, Ordenamento do território e Energia o RERAE visava criar um mecanismo para avaliar “a possibilidade de regularização de um conjunto significativo de unidades produtivas que não dispõem de título de exploração ou de exercício válido face às condições actuais da actividade”. Como se lê no preâmbulo do decreto de lei 165/2014, o Governo pretendia regularizar “estabelecimentos e explorações de actividades industriais, pecuárias, de operações de gestão de resíduos e de explorações de pedreiras incompatíveis com instrumentos de gestão territorial e ou condicionantes ao uso do solo”. Algumas dessas incompatibilidades, lê-se, são as “desconformidade com os planos de ordenamento do território vigentes ou com servidões administrativas e restrições de utilidade pública”."
No afã órfão-saudosista do pantomineiro do pin nunca passou pela cabecinha dos inteligentes da direita radical que ao começarem uma guerra de guerrilha contra Rui Rio, por interposta pessoa José Silvano, iam abrir a Caixa de Pandora e levar por tabela.
Daqui até às europeias vamos entrar no vale tudo, e não é de admirar se começarem a aparecer rabos de palha de Luís Montenegro, de Hugo Soares, ou até do próprio Passos Coelho, ressuscitado a preceito para desmoralizar aios, escudeiros e apóstolos. O que vai dar um jeito tremendo a Rui Rio, imbuído do seu desígnio terreno, a sua missão histórica em limpar o partido e o devolver ás origens. Fernando Negrão vai avisando que cabe ao eleitorado avaliar [e ao líder do partido propor quem vai a exame]. Para bom entendedor...
Em 1989, ano do licenciamento, era Cavaco Silva primeiro-ministro, em 1994, ano do alerta dado pelo Parlamento, era também primeiro-ministro Cavaco Silva, logo foi "o Estado", se fosse um Governo PS, um primeiro-ministro do PS, era "o Governo" ou, melhor ainda, "o Governo socialista", assim é o Estado, aquela entidade etérea e abstracta que, para o caso, assenta que nem uma luva no Governo em funções, já com um "cadastro de culpabilidade" que vem desde os incêndios de Pedrógão aos de Monchique, passando pelos paióis de Tancos e outras ocorrências que até 2109, ano eleitoral, se vão descobrir.
Quando Cavaco um dia escrever "Quintas-feiras e outros dias em que não sou afectado pelo alzheirmer político selectivo" vai explicar como é que dos bancos ás pedreiras passando pelos fundos comunitários, desinvestimento na ferrovia, desmantelamento da agricultura e pescas, neste país nada escapou ao longo braço do "agente laranja".
Estava a jantar com a televisão na SIC Noticias e cai uma reportagem sobre os milhares de crianças a morrer à fome no Iémen, por causa de uma guerra estúpida [há guerras inteligentes?] a partir de Riade e com a cumplicidade, industrial e potenciadora das exportações, europeia e 'amaricana'.
Faço zapping e caio na RTP 1 com um directo da Gala Michelin no Pavilhão Carlos Lopes em Lisboa e as estrelas atribuídas a restaurantes com menus ao alcance das bolsas dos industriais, banqueiros e empresários exportadores.
E depois é uma questão de tempo até ao populismo ou o oportunismo chico-esperto lançar uns nomes quaisquer conhecidos, ocos e correias de transmissão para fazerem figura de corpo presente, dizer que sim e assinar por baixo no Parlamento.
Quando Diogo da Silveira, presidente da Celpa e CEO da Navigator, sai do silêncio [sic] para vir proclamar que "a ideologia tem contaminado o debate sobre a floresta" não se está a referir à ideologia que, sem qualquer debate, disse às pessoas que o eucalipto era o "petróleo verde" e que era possível enriquecer rapidamente e com um mínimo de trabalho desde que as espécies nativas fossem substituídas por esse maná nascido do chão por cima de toda a folha, caduca ou permanente, e sem qualquer preocupação ambiental, climática, ou sustentabilidade ecológica, e com a cumplicidade do poder político-autárquico nas alterações e atropelos ás Reservas Agrícola e Ecológica Nacional, ou está?
Post-scriptum: Todos nos recordamos dos académicos e dos estudos científicos que não só nos garantiam que o tabaco não matava como alguns até afiançavam que era bom para a saúde.
Mais manhosa que a manhosa justificação dada pelo manhoso Macron como desculpa para o aumento dos combustíveis - a transição energética, costumava ser a manha da direita radical, quando oposição, a apontar o dedo ao Governo e à carga fiscal sobre os combustíveis, como se o Estado social universal não vivesse de impostos, como se a saúde, a educação, as pensões e reformas, os ordenados do funcionalismo público, e até o resgate dos bancos da excelência da gestão privada, não fosse tudo alimentado com o dinheiro do contribuinte. Comum a ambas é o nunca apontar o foco para onde ele devia estar apontado e que é para as mais-valias pornográficas a distribuir todos os anos pelos accionistas das petrolíferas.