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DER TERRORIST

"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.

Ainda a festa do Avante! (Os cúmplices)

por josé simões, em 04.09.07

 

“A direita tradicional é céptica em relação à intervenção cultural. Irrita-se com os apoios públicos, mesmo que representem uma parte insignificante dos orçamentos. Desvaloriza a produção. Receia as clientelas. Impacienta-se com os intelectuais. Desconfia das instituições e dos critérios de escolha. Subestima o impacto galvanizador dos projectos. Incomoda-se com a face subversiva da arte. No máximo, a velha direita considera legítimo que o Estado trate da conservação do património histórico, desde que se mantenha prudentemente afastado de fenómeno contemporâneo. É este o ponto de partida. É curto. É defensivo. É antiquado. Pede uma reviravolta, a bem da vitalidade. E é sempre da vitalidade que vem a excelência, a afirmação, a obra. Se há passado para invocar é porque alguém atrás inovou. Uma sociedade que não pretende a vanguarda petrifica.”
 
Gonçalo Reis in A Excepção Cultural na revista Atlântico de Março de 2007.
 
Houve uma época em que a cultura em praticamente todas as suas vertentes era “coutada” da Esquerda. Da música à literatura, passando pelo teatro, cinema, pintura, escultura, etc., era difícil, se não mesmo impossível, encontrar um criador que se reivindicasse do espaço político à Direita. A Direita dava-se mal com a cultura. Os criadores, os artistas, os intelectuais, davam-se mal com a Direita, muito por culpa desta, por não ter sabido cavalgar a onda da Revolução e ter ficado “lá atrás”, agarrada a um certo passado, conotada – por mérito próprio – com a ditadura.
 
Foi a época pós-revolução de Abril (PREC), e das eleições autárquicas subsequentes, em que, olhando para o mapa eleitoral autárquico, de Santarém para Sul era uma imensa mancha Vermelha, salpicada por alguns bastiões Rosa; a Azul e a Laranja só mesmo algumas regiões a Norte e na quase totalidade das Ilhas.
 
Como é sabido, as autarquias eram – e continuam a ser – os maiores empregadores culturais deste país, seja ao nível da promoção de espectáculos, seja ao nível da cedência de equipamentos, ou da atribuição de subsídios.
Será esta uma possível explicação para que os criadores / intelectuais / músicos conotados com uma certa Esquerda, por norma mais radical e rebelde em relação à (s) disciplina (s) partidária (s), ou ideologicamente mais afastada do PC e próxima de grupelhos como a UDP e outros m-l’s (marxistas-leninistas-maoistas) da altura – onde se incluia Zeca Afonso e todo o seu círculo à época (Sérgio Godinho, Vitorino e o clã Salomé, Samuel, José Mário Branco, etc.) -, que mantiveram sempre uma relação de conflituosidade com o PC, sempre terem aceite participar na Festa do Avante! apesar de todos os apesares. É que afrontar com uma negativa, a festa do jornal do partido organizador-mor de espectáculos, por via das autarquias que controlava, implicava ir para a lista negra e ficar quase todo o ano no desemprego (que o diga José Mário Branco). Posso compreender esta tomada de posição na altura, mas não a aceito, como já tive oportunidade de explicar aqui.
 
Agora, passados que são 33 anos sobre o 25 de Abril, e em que o PC perdeu a enorme influência que detinha nas autarquias, que estas cumplicidades se mantenham (veja-se o cartaz da festa deste ano), é que dá que pensar…

Anos 60

por josé simões, em 04.09.07

No feminino, a minha voz preferida dos anos 60 (ou o que quer que isso signifique).

 

Try (Live at Woodstock 1969) - Janis Joplin

Ainda a festa do Avante!

por josé simões, em 04.09.07

 

Onde se dá conhecimento de carta, publicada na secção Cartas ao Director, na edição de hoje do Público:
 
Carta aberta a Sérgio Godinho, Vitorino e Janita
 
«Sei que vão estar presentes na Festa do Avante! Que se realiza de 7 a 9 de Setembro na Atalaia, Seixal. Por isso acredito que saibam que também vai estar presente o Partido Comunista da Colômbia. Organização que está ligada às FARC, que têm Ingrid Bettencourt sequestrada há mais de 200 dias. Apesar dos movimentos a pedirem a sua libertação, As FARC têm sido insensíveis aos mesmos.
Continuo a pensar que acontecimentos como a Festa do Avante! São óptimas ocasiões para dar visibilidade a movimentos como este. Pensando que num passado, não muito longínquo, as vossas vozes se fizeram ouvir em muitos palcos a pedirem justiça e libertação de presos políticos, lembrei-me de vos escrever esta carta para que na Festa do Avante! Façam o que já fizeram no passado e gritem bem alto: “Liberdade para Ingrid Bettencourt.”
Dir-me-ão que não será bonito fazê-lo em casa de quem vos pagou para actuarem, mas acredito que ainda mantenham a irreverência e o gosto pela liberdade da vossa juventude tão bem expressos em muitas das canções que ouvi em alguns dos vossos espectáculos e agora ouço em CD. Fico à espera.
António Monteiro Pais – Lisboa.
 
Caro António Monteiro Pais; ou muito me engano, ou é melhor esperar sentado. Passo a explicar:
Durante alguns anos da minha vida exerci a profissão de Roadie, que, caso não saiba, são aqueles fulanos que chegam ao local dos espectáculos algumas horas, ou alguns dias antes deles acontecerem, e que têm como missão montar, desde os palcos aos PA’s, até ao afinar as guitarras para os músicos, e que, no fim, quando toda a gente já se foi embora, ainda por lá ficam mais alguns dias ou algumas horas, para procederem à desmontagem de tudo antes de partirem para outro.
Corria o mês de Agosto do ano de 1991, quando na então URSS, Mikhail Gorbachev foi vítima de uma tentativa de golpe de estado, levada a cabo pelo famoso “Gang dos Oito” com o intuito de trazer de volta os tempos de Brejnev. Valeu na altura a coragem de um desconhecido Boris Ieltsin que subiu para cima dos tanques e o resto é História. Também é História o apoio dado pelo PCP aos golpistas pela voz de um senhor que, no seu blogue, é agora um “enorme” defensor das causas da liberdade e das lutas dos oprimidos.
 
Pois bem, como ia dizer, tive como profissão Roadie, e, nos idos de 1991 recebi uma convocatória da empresa com que trabalhava, para acompanhar a montagem do espectáculo de uma banda portuguesa – que como deve compreender, não vou revelar o nome – na Festa do Avante! (o golpe foi em Agosto, a Festa em Setembro). Recusei o serviço, argumentando que não podia pactuar com a ditadura e a opressão, ao aceitar trabalhar para alguém que apoiava na URSS, o que dizia lutar contra em Portugal.
Eu não fui à Festa. Aliás, nunca mais trabalhei em nenhuma Festa do Avante! desde essa altura. Deixei de ganhar uns cobres que bem falta me faziam. A banda foi. Aliás, a banda continuou a ir.
 
Caro António Monteiro Pais; é melhor ir buscar uma cadeirinha ou um banco porque a espera vai ser longa.
(*) Imagem via TóColante.

Ainda há quem aposte em distorcer e moldar a História (IX)

por josé simões, em 04.09.07
“Esta guerra não é como as do passado. Quem quer que ocupe um território logo lhe impõe o seu próprio sistema social. Todos impõem o seu sistema até onde puderem ir os seus exércitos. Não pode ser de outra maneira.”
 

In: Conversas com Estaline de Milovan Djilas

A propósito desta interpretação simplista da história por Correia da Fonseca, para consumo interno no Partido, e, perdoem-me a expressão, mas é mesmo disso que se trata – doutrinar as camadas da sociedade mais ignorantes dos factos e acontecimentos da nossa história recente – vou aqui recuperar alguns excertos de um trabalho de Tony Judt. Pela sua extensão será publicado em vários posts.
 
Tony Judt, britânico, formado em Cambridge e na École Normale Supérieure, professor de História em Cambridge, Oxford e na Universidade de Berkeley, leccionando actualmente na Universidade de Nova Iorque a cadeira de Estudos Europeus, colunista na New York Review of Books, Times Literary Supplement, The New Republic, entre outros, escreve na sua obra Pós-Guerra – História da Europa desde 1945, editada em Portugal pelas edições 70, a propósito da divisão da Alemanha em dois estados (nono post):
 
O Muro de Berlim
 
“Há várias razões que explicam por que os Americanos nunca conseguiram cumprir os seus planos de deixar a Europa. Em finais dos anos 50, os estados unidos fizeram pressão para que existisse uma força nuclear dissuasora europeia e sob um comando colectivo europeu. No entanto, a ideia não agradou aos Britânicos nem aos Franceses. Tal não se ficava a dever ao facto de os respectivos governos se oporem por princípio às armas nucleares. Os primeiros fizeram explodir a sua primeira bomba de plutónio no deserto australiano, em Agosto de 1952; (…). Os Franceses possuíam um programa de armamento atómico, aprovado por Mendès-France, em Dezembro de 1954 (…). No entanto, nem os Britânicos nem os Franceses estavam dispostos a ceder o controlo das armas nucleares a uma entidade de defesa europeia. Os Franceses, sobretudo, estavam particularmente atentos a qualquer possibilidade de os Americanos permitirem o acesso dos Alemães ao botão nuclear. Os Americanos concordaram relutantemente em que a sua presença na Europa era indispensável, que era precisamente o que os seus aliados europeus pretendiam ouvir.
Um segundo tópico que ligava os Americanos à Europa era o problema de Berlim. Graças à derrota do bloqueio em 1948 – 1949, a antiga capital da Alemanha permanecia, de alguma forma, uma cidade aberta. Berlim Leste e Berlim Ocidental estavam ligadas por linhas telefónicas e redes de transportes que se cruzavam nas várias zonas de ocupação. Era também a única rota de passagem a Europa de Leste para o Ocidente. Os Alemães em fuga para o Ocidente podiam chegar a Berlim Leste vindos de qualquer ponto da República Democrática Alemã, atravessar a zona de ocupação russa em direcção às zonas ocidentais e depois percorrer por estrada ou por caminho-de-ferro o corredor de ligação de Berlim Ocidental ao resto da República Federal da Alemanha, Uma vez aqui, tinham automaticamente direito a ser cidadãos do país.
A viagem não estava inteiramente isenta de riscos e os refugiados só podiam trazer o que pudessem transportar, mas nenhuma destas considerações impedia os jovens da Alemanha de Leste a empreendê-la. Da Primavera de 1949 a Agosto de 1961, entre 2, 8 a 3 milhões de Alemães Orientais passaram por Berlim em direcção ao Ocidente, ou seja, 16% da população do país. Muitos deles tinham instrução e eram homens e mulheres com profissão, o futuro da Alemanha de Leste. Porém, neste número contavam-se também milhares de agricultores que fugiam da colectivização rural de 1952 e trabalhadores que abandonavam o regime depois da violenta repressão de Junho de 1953.
O curioso estatuto de Berlim era, assim, um embaraço permanente e um desastre para as relações públicas do regime comunista da Alemanha de Leste. O embaixador soviético na RDA avisou sensatamente Moscovo, em Dezembro de 1959: «A existência em Berlim de uma fronteira aberta – e, para ir directamente ao assunto, sem controlo – entre os mundos socialista e capitalista leva a população a fazer comparações, ainda que de forma involuntária, entre ambas as partes da cidade, o que, infelizmente, nem sequer favorece a Berlim Democrática.» A situação em Berlim tinha a sua utilidade para Moscovo, bem como para outros. A cidade tornara-se o principal posto de escuta e o principal centro de espionagem da Guerra Fria. Cerca de 70 agências diferentes operavam ali em 1961 e foi em Berlim que as agências de espionagem soviética alcançaram alguns dos seus maiores sucessos.
No entanto, agora que os líderes soviéticos tinham aceite a divisão da Alemanha e elevado a zona oriental a estado independente e soberano, não podiam continuar indefinidamente a ignorar a permanente hemorragia dos seus recursos humanos. Não obstante, quando Moscovo dirigiu uma vez mais a atenção mundial para Berlim e gerou uma crise internacional acerca do estatuto da cidade, que durou três anos, não foi por consideração para com as sensibilidades magoadas dos dirigentes da Alemanha de Leste. Em 1958, a União Soviética estava novamente preocupada com a possibilidade de os Americanos fornecerem armas aos seus aliados da Alemanha Ocidental, desta vez nucleares. Este receio não era, como vimos, totalmente insensato, Afinal, era também partilhado por alguns europeus ocidentais. Por isso, Kruschev pensou utilizar Berlim – uma cidade a cujo destino os russos seriam de outra forma indiferentes – como um meio para bloquear a nuclearização de Bona, questão a que eram de facto muito sensíveis.” (Continua)

Acredita quem quer...

por josé simões, em 03.09.07

 

O secretário britânico dos Negócios Estrangeiros anda em visita pelo Império do Meio. Segundo noticia hoje o Público, Malloch Brown ficou satisfeito por ter ouvido da boca de Liu Guijin, o responsável chinês para as questões africanas, que o seu país se vai distanciar do Zimbabwe e deixar de apoiar incondicionalmente o tirano-carniceiro Robert Mugabe, disponibilizando-se a China a «trabalhar intimamente com a comunidade internacional sempre que se trate de exercer pressão sobre determinados governantes.»
 
Eu, pessoalmente, teria ficado mais satisfeito se ouvisse os governantes chineses dizerem que se iam distanciar da China; daquela China… vocês sabem do que estou a falar; e que ia colaborar com a comunidade dos não-sei-quantos-milhões-de-chineses-que-vivem-na-China, de modo a instituir aquelas liberdades que para nós são básicas aqui no Ocidente. Como poder dizer livremente o que nos vai na alma, por exemplo.
Pela terceira vez aqui no blogue (e nunca é demais relembrar!):
Saiba mais aqui e aqui.

Publicidade enganosa

por josé simões, em 03.09.07

 Já repararam bem no cartaz que publicita o concerto de dia 27 dos The Police no Estádio Nacional? Não?! Reparem bem: apresenta a banda como ela era nos anos 80; o tempo não passou por ali – um pouco à imagem do “pneu” de Sarkozy –, o Sting tem cabelo, o Coppland não usa óculos, e, o Summers é magrinho.

Faz-me lembrar os cartazes de promoção turística do Allgarve; apresentam a região aos “bifes” como ela era nos idos de 70, sem casas nas arribas e com praias onde uma pessoa se podia esticar à vontade na toalha, sem correr o risco de enfiar o dedo do pé na boca do vizinho que está mais abaixo (ou vice-versa).
 
No cartaz Sting prega saltos indiferente a osteoporose, qual teenager na ressaca do punk.
O Allgarve também vai pregando os últimos saltos da sua (curta) vida, indiferente à osteoporose que lhe vai minando as entranhas, graças aos PIN’s que vão acabando com o que resta do património natural e da qualidade de vida.
 
Depois queixam-se que ninguém vai. (Aos concertos e à praia).
 
Adenda: Estive no primeiro concerto da banda no Restelo, com o RuiChico-FininhoVeloso na primeira parte. A este não vou, pela mesma razão que não vou ao Algarve: já não tenho idade para ser enganado; no caso dos The Police, por um gajo meia-dúzia de anos mais velho que eu.
 
Adenda à Adenda: Qualquer dia pareço o Miguel Sousa Tavares. Sempre a bater na mesma tecla.

Ainda há quem aposte em distorcer e moldar a História (VIII)

por josé simões, em 03.09.07
“Esta guerra não é como as do passado. Quem quer que ocupe um território logo lhe impõe o seu próprio sistema social. Todos impõem o seu sistema até onde puderem ir os seus exércitos. Não pode ser de outra maneira.”
 
In: Conversas com Estaline de Milovan Djilas.
A propósito desta interpretação simplista da história por Correia da Fonseca, para consumo interno no Partido, e, perdoem-me a expressão, mas é mesmo disso que se trata – doutrinar as camadas da sociedade mais ignorantes dos factos e acontecimentos da nossa história recente – vou aqui recuperar alguns excertos de um trabalho de Tony Judt. Pela sua extensão será publicado em vários posts.
 
Tony Judt, britânico, formado em Cambridge e na École Normale Supérieure, professor de História em Cambridge, Oxford e na Universidade de Berkeley, leccionando actualmente na Universidade de Nova Iorque a cadeira de Estudos Europeus, colunista na New York Review of Books, Times Literary Supplement, The New Republic, entre outros, escreve na sua obra Pós-Guerra – História da Europa desde 1945, editada em Portugal pelas edições 70, a propósito da divisão da Alemanha em dois estados (oitavo post):
 
O Bloqueio a Berlim (Segunda parte)
 
“A crise de Berlim teve três consequências relevantes. Em primeiro lugar, conduziu directamente à criação de dois Estados alemães, um resultado que nenhum dos Aliados pretendera quatro anos antes. Para as potências ocidentais tinha-se transformado num objecto apelativo e atingível. (…). Depois de perceber que não podia competir com os Aliados na fidelidade dos Alemães, nem tinha força para os obrigar a abandonar os seus planos, para Estaline o resultado menos mau foi um Estado comunista na Alemanha de Leste.
Em segundo lugar, a crise de Berlim deu origem ao compromisso dos Estados Unidos em ter uma presença militar significativa na Europa por um tempo indeterminado. Isto foi conseguido por Ernest Bevin, o ministro dos Negócios Estrangeiros britânico. Foi Bevin que instou os Americanos a liderar a ponte aérea para Berlim, depois de Marshall e o general Clay (…) terem assegurado a Truman que valia a pena correr o risco. (…).
Todavia, em terceiro lugar, e em consequência dos dois pontos anteriormente referidos, a crise de Berlim conduziu directamente a uma reavaliação dos cálculos militares ocidentais. Se o Ocidente ia proteger os seus clientes Alemães da agressão soviética, então ter-se-ia de adoptar dos meios necessários para o fazer. Os americanos estacionaram bombardeiros estratégicos na Grã-Bretanha quando começou a crise de Berlim, que estavam equipados para transportar bombas atómicas, de que os Estados Unidos possuíam 56 na altura. Mas Washington não tinha uma política definida sobre a utilização de tais bombas (Truman estava particularmente relutante em usá-las) e se se desse o caso de a União soviética avançar, a estratégia dos estados Unidos na Europa ainda pressupunha a retirada do continente.
O repensar da estratégia militar iniciou-se com o golpe de Praga. Logo a seguir a este, a Europa entrou num período de insegurança ainda maior, com muitas referências a uma nova guerra. Até o general Clay, que não era, em geral, dado a hipérboles, partilhava os receios comuns: «Durante muitos meses, baseado em análises lógicas, pensei e defendi que era impossível uma guerra durante dez anos, pelo menos. Nas últimas semanas, senti que houve uma mudança subtil na atitude da União Soviética, que não consigo definir, mas penso poder manifestar-se com um dramatismo súbito.» Foi nesta atmosfera que o Congresso dos Estados Unidos aprovou a legislação do Plano Marshall e os Aliados assinaram o pacto de Bruxelas, em 17 de Março de 1948. O pacto de Bruxelas, contudo, era um tratado convencional a 50 anos em que a Grã-Bretanha, a França e os países do Benelux se comprometiam a «colaborar em medidas de assistência mútua se houvesse uma nova agressão alemã», ao passo que os políticos europeus estavam claramente a ficar cada vez mais conscientes da sua exposição desamparada às pressões soviéticas. (…).
Foram os Britânicos que iniciaram uma nova abordagem a Washington. Num discurso ao parlamento, em 22 de Janeiro de 1948, Bevin declarou que a Grã-Bretanha integraria com os seus vizinhos continentais uma estratégia comum de defesa, uma «União Europeia Ocidental» (…). Esta União Europeia Ocidental foi inaugurada oficialmente com o pacto de Bruxelas, mas, como Bevin explicou a Marshall, (…), tal acordo estaria incompleto a menos que se transformasse num conceito mais amplo de segurança do Atlântico Norte como um todo, o que colhia as simpatias de Marshall numa altura em que Estaline estava a exercer uma pressão considerável sobre a Noruega para que assinasse um pacto de «não agressão» com a União Soviética.
Por isso, em resposta à solicitação de Bevin, tiveram lugar em Washington conversações secretas entre representantes britânicos, americanos e canadianos para elaborara um tratado de defesa do Atlântico
Em 6 de Julho de 1948, dez dias após ter começado a ponte aérea de Berlim e imediatamente a seguir à expulsão da Jugoslávia do Comimform, estas conversações foram abertas a outros membros do pacto de Bruxelas (…). Em Abril do ano seguinte, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (North Atlantic Treaty Organisation – NATO) teve o acordo e a assinatura dos Estados Unidos, do Canadá e de dez Estados europeus.” (Continua).

Exército de assassinos

por josé simões, em 02.09.07

Os amigos do PC. Sem mais comentários. Via Apdeites.

 

Fim-de-semana

por josé simões, em 02.09.07

 

Este fim-de-semana foi assim.

Life on Mars - David Bowie

(Vinyl 7" UK edition)

Ainda há quem aposte em distorcer e moldar a História (VII)

por josé simões, em 02.09.07
“Esta guerra não é como as do passado. Quem quer que ocupe um território logo lhe impõe o seu próprio sistema social. Todos impõem o seu sistema até onde puderem ir os seus exércitos. Não pode ser de outra maneira.”
 
In: Conversas com Estaline de Milovan Djilas.
 
A propósito desta interpretação simplista da história por Correia da Fonseca, para consumo interno no Partido, e, perdoem-me a expressão, mas é mesmo disso que se trata – doutrinar as camadas da sociedade mais ignorantes dos factos e acontecimentos da nossa história recente – vou aqui recuperar alguns excertos de um trabalho de Tony Judt. Pela sua extensão será publicado em vários posts.
 
Tony Judt, britânico, formado em Cambridge e na École Normale Supérieure, professor de História em Cambridge, Oxford e na Universidade de Berkeley, leccionando actualmente na Universidade de Nova Iorque a cadeira de Estudos Europeus, colunista na New York Review of Books, Times Literary Supplement, The New Republic, entre outros, escreve na sua obra Pós-Guerra – História da Europa desde 1945, editada em Portugal pelas edições 70, a propósito da divisão da Alemanha em dois estados (sétimo post):
 
O Bloqueio a Berlim
 
"Se Estaline se deu a tanto trabalho para afirmar e reafirmar a sua autoridade na Europa de Leste, foi em larga medida porque estava a perder a iniciativa na Alemanha.
 
(Não foi mera coincidência os conselheiros soviéticos terem sido retirados da Jugoslávia em 18 de Março de 1948, precisamente 48 horas antes do general Sokolovsky abandonar a reunião do Conselho de Controlo Aliado, na Alemanha.)
 
Em 1 de Junho de 1948, os Aliados ocidentais, reunidos em Londres, anunciaram planos para criar um Estado alemão separado. Em 18 de Junho, foi anunciada a nova moeda, o Deustch Mark. Três dias depois foi posto em circulação (as notas foram impressas nos Estados Unidos e transportadas para Frankfurt sob escolta do Exército americano). O velho Reischmark foi retirado de circulação, tendo cada alemão residente direito a trocar apenas 40 destes pelos novos marcos ao câmbio de 1 para 1 e os restantes ao cambo de 10 para 1. (…).
Em 23 de Junho, as autoridades soviéticas responderam fazendo sair um novo marco na Alemanha de Leste e cortando as linhas de caminho-de-ferro que ligavam Berlim à Alemanha Ocidental (três semanas depois fechariam os canais). No dia seguinte, o governo militar ocidental de Berlim bloqueou os esforços soviéticos de alargamento do uso da nova moeda da zona oriental em Berlim ocidental, o que era uma importante questão de princípio porque a cidade de Berlim estava sob administração das quatro potências e a zona ocidental não fora até então considerada como fazendo parte da Alemanha de Leste ocupada pela União Soviética. À medida que as tropas soviéticas apertavam o controlo sobre as ligações de superfície com a cidade, os governos americano e britânico decidiram realizar uma ponte aérea para abastecer as suas próprias zonas e, em 26 de Junho, o primeiro avião de transporte aterrou no aeroporto de Tempelhof em Berlim (Ocidental).
 Ponte aérea durou até 12 de Maio de 1949. Durante esses 11 meses os Aliados enviaram 2, 3 milhões de toneladas de alimentos em 275 500 voos, com o custo de 73 vidas de tripulantes aliados. O propósito de Estaline ao fazer o bloqueio a Berlim era forçar o Ocidente a escolher entre deixar a cidade (tirando partido da ausência de qualquer garantia escrita nos protocolos de Postdam quanto ao acesso terrestre por parte dos Aliados) e abandonar os seus planos de criar um Estado alemão ocidental separado. Mas se isso era o que Estaline pretendia – Berlim era sempre para ele a moeda de troca – acabou por não realizar nenhum desses objectivos.
Os Aliados não apenas conseguiram manter a sua parte de Berlim (com alguma surpresa sua e uma gratidão maravilhada dos próprios berlinenses ocidentais), mas o bloqueio soviético, que aconteceu depois do golpe de Praga, apenas aumentou a sua determinação em continuar com os planos para a Alemanha Ocidental, para além de ter tornado a divisão do país mais aceitável aos próprios Alemães. A França juntou-se à zona dupla em Abril de 1949, criando uma unidade económica alemã ocidental de 49 milhões de habitantes (contra 17 milhões na zona soviética).
Tal como a maioria das aventuras diplomáticas de Estaline, o Bloqueio de Berlim foi uma improvisação, e não parte de um desígnio agressivo bem pensado (embora o Ocidente não possa ser acusado de o ignorar na altura). Estaline não estava disposto a entrar em guerra por causa de Berlim (se o tivesse pretendido haveria poucos impedimentos de ordem prática. Na Primavera de 1948, a União Soviética tinha 300 divisões com Berlim ao seu alcance. Os Estados Unidos tinham apenas 60 000 soldados em toda a Europa, menos de 700 dos quais em Berlim). Por isso, quando o bloqueio falhou, o líder soviético mudou de orientação. Em 31 de Janeiro de 1949, propôs publicamente levantar o bloqueio em troca de um adiamento dos planos para um Estado alemão ocidental. S Aliados ocidentais não tinham qualquer intenção de fazer tal concessão, mas foi acordado que se realizasse um encontro para discutir o assunto e a 12 de Maio a União Soviética terminou o bloqueio em troca apenas de uma conferência dos ministros dos Negócios Estrangeiros marcada para 23 desse mês.
A conferência realizou-se conforme estava programado e durou um mês, mas, como se poderia prever, não se encontrou uma base de entendimento. Na verdade, tinha precisamente começado quando o conselho parlamentar da Alemanha Ocidental aprovou formalmente em Bona a «Lei Básica» que criava um governo alemão ocidental. Uma semana mais tarde, Estaline respondeu, anunciando também planos para a criação de um Estado alemão oriental, o que aconteceu formalmente em 7 de Outubro. (A Lei Básica era deliberadamente provisória, pois destinava-se a «dar uma nova ordem à vida política durante um período de transição», ou seja, até que o país fosse reunificado). Quando a conferência se iniciou, em 20 de Junho, o governo militar instalado na Alemanha Ocidental foi substituído por Altos-Comissários dos Estados Unidos, Grã-Bretanha e França. Foi criada a República Federal da Alemanha, embora os Aliados tenham reservado para si alguns poderes de intervenção e mesmo direito de reassumir o governo directo se o julgassem necessário. Em 15 de Setembro de 1949, depois do êxito do seu Partido Democrata-Cristão nas eleições do mês anterior, Konrad Adenauer tornou-se o primeiro chanceler da República." (Continua).
 

Política 2.0

por josé simões, em 02.09.07
Concordo em absoluto com Henrique Burnay do 31 da Armada quando escreve «A ideia de um partido político português ter um canal no Youtube é inteligente. É simplesmente inteligente, independentemente de todos os outros comentários que se vão fazer. Até por causa deles. Uma das maiores qualidades de Portas é exactamente essa, é o mais actualizável de todos os que se dizem conservadores.»
 
Quando se é líder virtual de um partido virtual – como é o caso de Paulo Portas – o melhor meio para fazer passar as ideias é a net. Eficaz e higiénico, poupa as maçadas dos beijinhos e os incómodos de fazer discursos em praças e pavilhões às moscas. Qual o próximo passo de Portas? Abrir uma concelhia no Second Life?
 
O problema é que o país a que Portas quer fazer chegar a sua mensagem, não é virtual. Infelizmente – para ele, Portas –, é real. Bem real. Daquela realidade que “até dói”.

O PCP e os assassinos

por josé simões, em 01.09.07

 

Em constante actualização no Kontratempos.
aqui havia sido questionada a relação entre os 90 anos da Revolução de Outubro e a Defesa da Democracia. Mais uma para o rol.
 
O Der Terrorist associa-se à vaga. Tiago conta connosco; dizemos Presente!
Ler mais aqui.

Ainda há quem aposte em distorcer e moldar a História (VI)

por josé simões, em 01.09.07
 
“Esta guerra não é como as do passado. Quem quer que ocupe um território logo lhe impõe o seu próprio sistema social. Todos impõem o seu sistema até onde puderem ir os seus exércitos. Não pode ser de outra maneira.”
 
In: Conversas com Estaline de Milovan Djilas.
A propósito desta interpretação simplista da história por Correia da Fonseca, para consumo interno no Partido, e, perdoem-me a expressão, mas é mesmo disso que se trata – doutrinar as camadas da sociedade mais ignorantes dos factos e acontecimentos da nossa história recente – vou aqui recuperar alguns excertos de um trabalho de Tony Judt. Pela sua extensão será publicado em vários posts.
 
Tony Judt, britânico, formado em Cambridge e na École Normale Supérieure, professor de História em Cambridge, Oxford e na Universidade de Berkeley, leccionando actualmente na Universidade de Nova Iorque a cadeira de Estudos Europeus, colunista na New York Review of Books, Times Literary Supplement, The New Republic, entre outros, escreve na sua obra Pós-Guerra – História da Europa desde 1945, editada em Portugal pelas edições 70, a propósito da divisão da Alemanha em dois estados (sexto post):
 
“A causa imediata da divisão da Alemanha e da Europa reside mais nos próprios erros de Estaline durante estes anos. Na Europa Central, onde teria preferido uma Alemanha unificada, fraca e neutral, desperdiçou, em 1945 e nos anos seguintes, a vantagem que possuía, devido à sua rigidez intransigente e à sua táctica de confrontação. Se a esperança de Estaline era deixar que a Alemanha apodrecesse até que o fruto do ressentimento e do desespero alemães caísse nas suas mãos, então errou em muitos dos seus cálculos, embora tivesse havido momentos em que as autoridades aliadas na parte ocidental da Alemanha se interrogassem da possibilidade de êxito de Estaline. Nesse sentido, a Guerra Fria na Europa foi o resultado inevitável da personalidade do ditador soviético e do sistema que dirigia.
Mas permanecia o facto de a Alemanha estar aos seus pés, como os seus opositores bem sabiam. «O problema é que estamos a brincar com um fogo tal que não temos nada com que o apagar», como se expressou Marshall no Conselho Nacional de Segurança, em 13 de Fevereiro de 1948. Tudo o que a União Soviética precisava de fazer era aceitar o Plano Marshall e convencer a maior parte dos Alemães da boa-fé de Moscovo ao propor uma Alemanha neutral e independente. Independentemente do que Marshall, Bevin e os seus conselheiros pudessem ter pensado de tais manobras, seriam impotentes para as impedir. Que tais avaliações tácticas estivessem além da capacidade de Estaline não pode ser atribuído ao Ocidente. Como Dean Acheson disse em outra ocasião: «Temos sorte com os nossos adversários.»
Analisando retrospectivamente, é de alguma forma irónico que depois de terem combatido numa guerra mortífera para destruir o poder de uma Alemanha todo-poderosa e localizada no centro do continente europeu, os vencedores se tivessem revelado tão ineficazes em chegar a um acordo pós-guerra para manter submisso o colosso alemão, tendo acabado por o dividir entre si para poderem tirar partido separadamente da sua força restaurada. Tinha-se tornado claro – primeiro para os Britânicos, depois para os Americanos, tardiamente para os Franceses e finalmente também para os Soviéticos – que a única forma de evitar que a Alemanha fosse o problema era mudar os termos do debate e dizer que era nisso que residia a solução. Foi desagradável, mas resultou. Segundo as palavras de Noel Annan, um funcionário dos serviços secretos britânicos na Alemanha ocupada: «Era detestável que, para manter afastado o comunismo, nos aliássemos a pessoas que estiveram voluntariamente com Hitler. No entanto, a maior esperança do Ocidente era encorajar os próprios Alemães a criar um Estado democrático ocidental.»” (Continua).

Porque hoje é sábado

por josé simões, em 01.09.07

 

Evening in Kenwood 1931 - 35

Fotografia de Bill Brandt

 

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