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DER TERRORIST

"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.

Grândola Vila Morena ... o porquê a canção de Abril

por josé simões, em 25.04.07

 

 

«Conto esta história na primeira pessoa, porque é a narrativa de uma experiência de vida difícil de esquecer…

Há quem pense que foi a letra que fez do “Grândola” a canção escolhida para “senha de avanço” na noite de 24 para 25 de Abril de 1974, que foi o poema ou a figura de José Afonso, per se… mas não… se tudo isso pesou, e pesou decerto, a composição do Zeca tornou-se o símbolo da revolução dos cravos por um significado maior, que adquiriu menos de um mês antes. Foi num acontecimento em que participaram muitos portugueses, de forma espontânea, mas que passou relativamente despercebido na comunicação social de então, nesses tempos em que a Imprensa, para falar de certas coisas, tinha que fazê-lo “nas entrelinhas”…

Estava-se em Março de 1974.

A Casa da Imprensa organiza, no Coliseu dos Recreios, o “Primeiro Encontro da Canção Portuguesa”.

Quase não aconteceu, porque a necessária autorização nunca chegou. Segundo declarações de José Jorge Letria à Visão, trinta anos depois, “O regime já estava nitidamente em fase de implosão. Quiseram derrotar-nos não com uma proibição do Festival, mas com uma não-resposta. Até ao dia do espectáculo ainda não sabíamos se tínhamos, ou não, autorização. Por volta das 17 e 30 do dia 29, quando cheguei ao Coliseu, já havia muita gente à volta, e ao fundo da Avenida da Liberdade lá estava a polícia de choque… estava a desenhar-se ali um confronto!

O ambiente no país era tenso: menos de duas semanas antes tinha ocorrido o golpe frustrado de 16 de Março, a censura dominava.

Eu trabalhava então como repórter free-lancer para o programa “Limite” da Rádio Renascença (o tal que tocou o “Grândola Vila Morena”) e fazia em média seis reportagens de exteriores por semana, com não mais que uma a passar as malhas da censura.

Nessa noite, fui ao Coliseu, armado de gravador e uma grande vontade de ouvir as vozes que os censores da rádio baniam.

O ambiente era quente, a despeito de uma primavera ainda fria… os bilhetes tido sido todos vendidos e houve quem ficasse à porta. O Governo fez deslocar para o Coliseu muitos agentes da ex-PIDE, que então se chamava DGS, misturados com os espectadores.

A primeira coisa que vi quando cheguei foram dois cavalheiros da censura a verificar as letras do que ia ser cantado – o visado era Adriano Correia de Oliveira, depois seguiram-se todos, sem excepção – o Zeca lá conseguiu ordem para cantar o Milho Verde e uma música alentejana que não pareceu perigosa aos senhores do lápis vermelho, o “Grândola”…

Do palco, a música abraçou um Coliseu com cerca de sete mil pessoas.

Ali estiveram Carlos Alberto Moniz e Maria do Amparo, Pedro Almeida, Fausto, Barata Moura, Vitorino, Adriano Correia de Oliveira, Zeca Afonso, Carlos Paredes, José Jorge Letria e Manuel Freire.

Tudo foi normal até à chegada ao palco do “cantor andarilho”. Zeca cantou o Milho Verde e a plateia pediu as canções que mais gostava… “Os Vampiros”, foi um grito que ouvi várias vezes.

Nessa altura, decidi sair dos bastidores e fui para a plateia, gravar tudo mais de perto.

José Afonso ia dizendo que não podia cantar o que o público queria… “Não pode ser, percebam… vamos cantar outra coisa”…

Foi então que se começou a fazer História.

Zeca cantou o Grândola. A meio, a plateia juntou-se-lhe, depois o resto do Coliseu, e também os artistas que tinham estado em palco – voltaram, deram-se braços, cantaram juntos, numa fila que enchia a boca de cena.

A canção estava no fim, por essa altura… e foi natural que nem chegasse a terminar, recomeçando agora a sete mil vozes!

Eu corria de pessoas em pessoa, recolhendo testemunhos que não conseguia ouvir, microfone encostado às bocas…

O som era avassalador, uma música simples, uma letra que todos sabiam, sete mil peitos em riste… até àquilo que foi a mais impressionante manifestação espontânea que assisti em toda a minha vida!

Já o Grândola ia em fins de segunda volta, aconteceu o inesperado…

… a certa altura, em vez de a música continuar alentejana, o próximo verso foi o primeiro do Hino Nacional – assim, sem pausa, sem transição, sem que ninguém tivesse dito nada… parece que foi um sentimento colectivo que sete mil pessoas tiveram!

Grândola Vila Morena transformou-se em Heróis do Mar e foi cantado da primeira à última estrofe, sete mil portugueses de pé a fazer vibrar a sala com o hino da pátria amordaçada, numa repentina liberdade assumida ali e então.

Nada poderia ter sido mais claro, nenhum grito faria mais sentido.

Foi um momento que ficou escrito em letras de memória para quem lá esteve, um momento inolvidável, uma pedra de História.

Tinha nascido a razão maior por que “Grândola Vila Morena”, menos de um mês depois, se tornaria a escolha natural para uma senha que iria abrir as portas a um pais novo!»

 

Pedro Laranjeira

Geração pós-revolução

por josé simões, em 25.04.07

Passou-lhes ao lado. A todos os partidos com assento parlamentar – sem excepção.

O Presidente da República no discurso comemorativo do 25 de Abril no Parlamento pôs o dedo a ferida. Os jovens portugueses, das gerações nascidas pós-revolução, são dinâmicos e empreendedores – ao nível dos melhores do mundo; senão mesmo dos melhores – mas a política passa-lhes ao lado. Porque será?! A resposta a esta questão está no primeiro e segundo parágrafo deste post. Passa-lhes ao lado… (cego é aquele que não quer ver).

33 anos

por josé simões, em 25.04.07

Faz hoje 33 anos mas lembro-me como se fosse ontem.

 

Como de costume a minha mãe acorda-me para ir para a escola. Como de costume espreito pela janela do quarto. O céu está nebulado em Setúbal. Como de costume o meu pai já havia saído há muito para o trabalho.

Na rádio tocam umas músicas “estranhas”. Acabo de tomar o pequeno-almoço e diz-me a minha mãe: «Afinal, hoje não vais à escola…», «Porquê?!» pergunto eu, admirado com tamanha condescendência, «Está a haver uma revolução em Lisboa» responde-me num tom seco. E na rádio: «Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas…»

 

Agenda

por josé simões, em 25.04.07

EXPOSIÇÕES

 

- Fotografia por Chema Madoz

Galeria 111 – Lisboa, até dia 28 de Abril

 

- Lama de Daniel Barroca

Museu da Electricidade (Central Tejo) – Lisboa, até 20 de Maio

 

 

TEATRO

 

- Memórias D’Algodão Doce

Pela Propositário Azul – Associação Artística

Sala Estúdio do Teatro da Trindade – Lisboa, até 6 de Maio às 22 h.

 

- Selvagens Homem de Olhos Tristes de Handl Klaus

Teatro Aberto – Lisboa, a partir de 26 de Abril às 21. 30 h.

 

 

MÚSICA

 

- Camané e Orquestra Sinfónica Portuguesa

Teatro São Luiz – Lisboa, até 6 de Maio às 21 h.

 

- Samsão e Dalila de Saint-Saens

Com Hadar Havély e Franco Farina entre outros.

Grande Auditório da Gulbenkian – Lisboa, dia 26 de Abril às 20 h.

 

- Scissor Sisters

Coliseu dos Recreios – Lisboa, dia 27 de Abril às 21 h.

 

- Larkin Grimm

Galeria ZDB – Lisboa, dia 27 de Abril às 23 h.

 

- Stell Drumming toca Zeca Afonso

Pequeno Auditório da Culturgest – Lisboa, dia 30 de Abril às 21 h.

 

 

NOITE

 

- Noite Elecktrorgânica Syncho

Pedro Tiago

ADN bar – Setúbal, dia 26 de Abril a partir da meia-noite e meia

 

- Ellen Allien, Tomas Andersson

Lux – Lisboa, dia 26 de Abril a partir da uma.

 

- P0wer Up

Eduardo Martins

Baco – Setúbal, dia 27 de Abril a partir das 23 h.

 

- Teenage Fuckfast

ADN bar – Setúbal, dia 27 de Abril a partir da uma.

 

- Mister Simon

La Bohéme – Setúbal, dia 28 de Abril a partir das 23 h.

 

- Eduardo Martins & dj Time

ADN bar – Setúbal, dia 30 de Abril a partir da uma.

 

- Booka Shade

Lux – Lisboa, dia 30 a partir das 23 h.

 

E depois do adeus

por josé simões, em 24.04.07

 

Paulo de Carvalho

E depois do adeus

(vinyl 7")

Sindicatos e interesse público

por josé simões, em 24.04.07

“Não existe razão lógica para que os sindicatos encarem de maneira radicalmente diversa as empresas públicas e as privadas.”

 

“No discurso de tomada de posse, o novo secretário-geral da Fenprof, a federação sindical dos professores da CGTP, anunciou a intensificação da guerra contra as reformas em curso na área do ensino. Isto não teria nenhuma novidade, não fora a proclamação de que a luta sindical visa a “defesa da escola pública”. A pergunta é a seguinte: existe alguma relação natural entre os interesses dos profissionais dos serviços públicos (educação, saúde, etc.) e a defesa desses mesmos serviços?”

 

A resposta a esta pergunta formulada por Vital Moreia, num artigo de opinião intitulado «Sindicatos e Interesse Público» pode ser lida no Público de hoje.

Raramente partilho das opiniões de Vital Moreira. Hoje estou totalmente de acordo com o que escreve. Termina assim: “No conflito entre os interesses profissionais e os da escola pública, o Estado só pode atender aos primeiros sem sacrificar os segundos.”

Mai’nada!

O Parlamento com paredes de vidro

por josé simões, em 24.04.07

“A ideia de os deputados verem as suas declarações de interesses plasmadas no sítio da Internet da Assembleia da República – como consta do projecto de reforma liderado por António José Seguro – não agrada à generalidade dos deputados do PSD. Outra proposta que parece não colher grande simpatia junto dos sociais-democratas (sic) é a publicação, também online, da folha de faltas dos parlamentares, bem como as respectivas notas de justificação das ausências.”

 

Pode ser lido no Diário de Notícias de hoje.

In Memoriam

por josé simões, em 23.04.07

Boris Nikolayevich Yeltsin

1931 - 2007

Cair no Limbo

por josé simões, em 23.04.07

O Vaticano acabou com o “limbo” para as crianças que morrem sem receber o baptismo. No domingo seguinte (ontem) a RTP montou plantão às portas da igreja de Benfica. Que os fiéis digam de sua justiça.

Entre imagens captadas no interior do templo e cidadãos anónimos entrevistados à saída da cerimónia, arrisco uma média de idades para cima dos 60 anos. Penso não ser um problema só da igreja de Benfica, mas de todas as igrejas. João Paulo II foi dos primeiros a ter essa noção; a prova foram os frequentes encontros de jovens promovidos pelo seu pontificado Curioso é, uma medida que visa principalmente o “eleitorado” jovem, vá encontrar, maioritariamente, alguém que já escapou a essa fase/ punição, e, o mais que pode arriscar é o inferno ou o purgatório, dependendo do que a alma de cada um transporta, aos olhos de Deus.

 

Pela média de idades poderia arriscar que era um comício do PC.

Esta analogia não é de modo algum inocente. O comunismo enquanto ideologia que excluiu a(s) religi(ã)ões, foi sempre apresentado e doutrinado - aos seus fiéis em particular, e às populações em geral – “roubando” as bases e os princípios às religiões que excluía. Não era viável riscar, pura e simplesmente, séculos de história e cultura da memória dos povos. Tinha de haver uma alternativa consistente e que assentasse em princípios não estranhos às comunidades. Foi o que o comunismo fez. Substituiu-se; ocupou o lugar.

No entanto, tal não impediu o comunismo de cair no limbo – político, mas apesar de tudo limbo.

Medidas correctivas da doutrina, tomadas em avulso, e, independentemente da sua justeza aos olhos dos crentes, serão suficientes para impedir a Igreja Católica, ela própria, de cair no limbo?

 

Fim de semana

por josé simões, em 22.04.07

 

Este fim de semana foi assim.

 

Devo - Come Back Jonee...

(Vinyl 7")

Inqualificável

por josé simões, em 22.04.07

"A empresa americana denunciou a Pequim a identidade de um indivíduo que publicava críticas ao Governo chinês num serviço de mensagens da Yahoo!. Wang Xiaoning foi condenado a dez anos de cadeia. O espaço de liberdade de expressão que a Internet constitui não sobreviverá se as empresas não resistirem às pressões das ditaduras."

 

Mais desenvolvimentos no Público de hoje.

Política-politiqueira

por josé simões, em 22.04.07

 Esclarecimento prévio: contam-se pelos dedos das mãos as vezes que vi a TVI – excluindo as transmissões de jogos de futebol. Não gosto. Não gosto dos telejornais; misto de Correio da Manhã e O Crime. Não gosto as telenovelas; tenho coisas mais úteis e importantes para ver/ ler/ fazer.

 

Não consigo ver qual é o problema de maior com a nomeação de Joaquim Pina Moura para o cargo de administrador da TVI. Para mim a Prisa até podia ter nomeado José Sócrates himself.

Não consigo entender as críticas, ainda para mais vindas daqueles quadrantes políticos defensores da livre iniciativa privada e da não interferência do Estado na vida das empresas A TVI é uma empresa privada, certo? Os donos da TVI são livres de escolherem quem bem entenderem para gerir os destinos da sua empresa, certo?

Consigo ver pelo prisma da politica-politiqueira.

 

Cavaco Silva enquanto Primeiro-ministro abriu os sectores da TV e da Rádio à iniciativa privada. A primeira licença atribuída foi à SIC de Francisco Pinto Balsemão, ex-Primeiro-ministro e militante número um do PSD. Veio algum mal ao país por isso? Alguém de perfeito juízo arrisca afirmar que a SIC é o O Avante do PSD? Onde estavam as vozes que agora caem e cima da Prisa e da TVI?

 

Preocupa-me – entre aspas – sim, o percurso político de Pina Moura. De militante comunista a arquitecto do guterrismo;: até homem de confiança dos espanhóis, qual Miguel de Vasconcelos dos tempos modernos. Haverá outro 1640?

Contra o Fanatismo (V)

por josé simões, em 22.04.07

 “Eu era muito jovem quando vivi sob o mandato britânico. As primeiras palavras inglesas que aprendi a pronunciar em criança, antes de aprender inglês no colégio – as primeiras, para alem do yes ou do no –, foram British, go home!, que era o que nós, míudos judeus de Jerusalém, costumávamos gritar enquanto atirávamos pedras às patrulhas britânicas na nossa própria Intifada, que teve lugar entre 1945 e 1947. Impossível não desenvolver o sentido do relativismo, o sentido da perspectiva e uma certa triste ironia a propósito do modo como o ocupado se transforma em ocupante, o oprimido em opressor, como a vítima de ontem pode facilmente converter-se em verdugo, em virtude da facilidade com que mudam os papéis.

Antes de 1948, em Jerusalém Ocidental havia vários bairros árabes. Depois veio o assédio, o acosso, o bombardeamento da Jerusalém judaica por parte dos exércitos jordano e egípcio, a artilharia e os ataques aéreos. Quando tudo terminou, não havia árabes nem vizinhanças árabes. Pelo que me toca, apesar de ter opiniões sólidas sobre quem foi mais culpado por aquilo que aconteceu em 1948 (e julgo que os governos árabes têm a maior parte da responsabilidade), isso não vem ao caso. A tragédia é o acontecimento em si. Sejam os governos árabes os culpados, ou os sionistas, ou ambos, ou seja a culpa repartida, a verdade continua a ser que, em 1948, centenas de milhares de palestinianos perderam os seus lares. Sei que nesse mesmo ano, na mesma guerra, cerca de um milhão de judeus orientais dos países árabes também perderam as suas casas e muitos deles foram escorraçados a pontapé e acabaram em Israel nas mesmas casas que, anteriormente, tinham pertencido aos Palestinianos. Esse sobreviventes-refugiados judeus do Iraque, do Norte de África, do Egipto, da Síria, do Iémen, após três, quatro, cinco anos a viverem em campos de transição, acabaram por conseguir casa e trabalho, ao passo que os refugiados palestinianos, não. Assim, a questão continua em aberto e é dolorosa. Como narrador, como romancista não posso ignorar que esta não é uma história a preto e branco. Não é um conto de bons e de maus. Não é um filme do Faroeste selvagem nem o seu contrário. Embora na Europa, com alguma frequência, com mais frequência do que o contrário, tenha encontrado pessoas impacientes que pretendem saber, em cada historia, em cada conflito, quem são os bons e quem são os maus, a quem deveríamos apoiar e contra quem deveríamos protestar… Penso, com a minha experiência, que o choque entre Judeus Israelitas e Árabes Palestinianos não é uma história de bons e maus. É uma tragédia: um choque entre quem tem razão e quem tem razão.”

 

Excerto de “Contra o Fanatismo” do escritor israelita Amos Oz.

Regionalização

por josé simões, em 21.04.07

Lisboetas pagam mais IRS

Famílias residentes na capital suportam mais 72, 4% de IRS do que as que vivem no resto país.”

“As famílias que vivem em Lisboa pagam, em média, quase mais 2111 euros por ano em IRS que o resto da país.”

 

“Lisboa paga metade do IRC”

“Tal como acontece com as famílias, também no caso das empresas a capital contribui com a maior fatia dos impostos pagos. Metade d encaixe de IRC conseguido pelo Fisco veio de empresas com sede em Lisboa.”

 

Isto pode ser lido no caderno Economia, na edição de hoje do Expresso. E seria, de entre outros, um dos bons argumentos para ressuscitar o movimento pela regionalização a partir da Grande Lisboa. Mas, ao que se assiste, é a tentativa de ressurreição estar a ser encetada a partir de outras zonas do país, com a região norte na vanguarda.

Tenho por adquirido que, seria assim como uma espécie do milagre da multiplicação dos pães – Albertos Joões e Fátinhas Felgueiras com fartura, disseminados de norte a sul de Portugal.

Regiões? Não, Obrigado! 

Contra o Fanatismo (IV)

por josé simões, em 21.04.07

 “Uma das coisas que torna especialmente duro o conflito palestiniano-israelita ou árabe-israelita é que se desenrola entre duas vítimas. Duas vítimas do mesmo opressor. A Europa – que colonizou o mundo árabe, o explorou, o humilhou, que pisou a sua cultura, o controlou e o usou como pátio de recreio imperialista – é a mesma Europa que descriminou os Judeus, os perseguiu, os acossou, e, finalmente, os assassinou em massa num crime genocida sem precedentes. Poderia pensar-se que duas vítimas desenvolvem de imediato entre si um sentimento de solidariedade – é assim, por exemplo, na poesia de Bertolt Brecht, onde as vítimas se irmanam imediatamente e marcham juntas para as barricadas, entoando as suas canções. Mas na vida real, os piores conflitos dão-se precisamente entre duas vítimas do mesmo opressor. Dois filhos do mesmo pai cruel não se amam necessariamente. Muitas vezes, cada um vê no outro a própria imagem do pai cruel.

É justamente este o caso do judeu e do árabe, não só do israelita e do palestiniano. Cada uma das partes olha e vê na outra a imagem dos seus opressores do passado. Frequentemente, os Judeus, especialmente os Judeus Israelitas, aparecem caracterizados como prolongamento da Europa branca do passado, sofisticada, tirana, colonizadora, cruel, sem coração. (Assim me demonstra grande parte da literatura árabe contemporânea que tenho lido. Não toda. E devo fazer uma ressalva: só consigo ler a traduzida, pois infelizmente não sei árabe.) São descritos como colonizadores que chegaram uma vez mais ao Médio Oriente, desta vez disfarçados de sionistas, para tiranizar, colonizar, explorar. Com muita frequência, os Árabes, inclusive alguns escritores árabes com sensibilidade, não conseguem ver-nos – a nós, Judeus Israelitas – como realmente somos: um punhado de refugiados e sobreviventes meio histéricos, perseguidos por pesadelos horríveis, traumatizados não só pela Europa como também pelo tratamento recebido nos países árabes e islâmicos. Metade da população de Israel é constituída por gente empurrada de países árabes e islâmicos. Israel é, de facto, um imenso campo de refugiados judeus. Metade dos Judeus são, na realidade, refugiados de países árabes. Mas os árabes não nos vêem assim; vêem-nos como uma extensão do colonialismo. Do mesmo modo, nós, Judeus Israelitas, não vemos os árabes, especialmente os Palestinianos, como aquilo que eles são: vítimas de séculos de opressão, exploração, colonialismo e humilhação. Não, vemo-los como organizadores de pogroms, como nazis de kaffiyehs enfiados na cabeça, que deixam crescer o bigode e andam queimados do sol, mas mantêm o velho jogo de cortar gargantas aos judeus. Em resumo, são os nossos opressores do passado, sempre e outra vez. Há uma grande ignorância a este respeito de ambos os lados: não ignorância dos propósitos e objectivos políticos, mas dos antecedentes, dos profundos traumas de ambas as vítimas.

Fui bastante crítico em relação ao movimento nacional palestino durante muitos anos. Algumas das razões são históricas, outras não. Sobretudo, fui muito crítico pela sua incapacidade de compreender como é genuína a ligação judaica à terra de Israel. É incapaz de perceber que o Israel moderno não é o produto de qualquer empresa colonialista, ou, pelo menos, é incapaz de dizê-lo ao seu povo. Devo dizer desde já que sou igualmente crítico em relação às gerações de israelitas sionistas, incapazes de conceber que há um povo palestiniano, um povo real, com direitos legítimos e reais. Assim, ambas as lideranças – sim, a passada e a actual – são culpadas de não compreender a tragédia, ou, pelo menos, de não a contar ao seu povo.”

 

Excerto de “Contra o Fanatismo” do escritor israelita Amos Oz.