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DER TERRORIST

"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.

A religião nos manuais escolares: UMA VISÃO LAICISTA (II)

por josé simões, em 19.06.07

A fé contra a razão: uma perspectiva laicista

 

Nos anos decisivos da formação do adolescente – dos 11 aos 15/ 16 – não há nos manuais analisados, nenhuma introdução séria ao fenómeno religioso, mesmo da religião cristã, onde as poucas explicações pecam pelo simplismo e pela falta de rigor e são frequentemente substituídas por exercícios opinativos, tais como: «Consideras as razões religiosas, razões válidas para se fazer uma guerra? Haverá razões que justifiquem uma guerra? Haverá guerras justas?» (4) Com efeito, emerge do conjunto dos manuais analisados uma imagem da religião ao longo da história, sobretudo, como factor de conflito e de atraso; raramente as religiões são abordadas numa perspectiva analítica e comparativa, a sua influência não só histórica, mas moral e civilizacional decisiva. Consequentemente, a tolerância surge naturalmente como produto do laicismo, daqueles «que não têm qualquer religião.» (5)

Apesar disto, a ideia com que se fica após a consulta dos manuais é que deus é exclusivamente cristão, mais propriamente católico, o resto é cultura ou folclore dos «portadores de diferença.» (6) O Islão é apresentado sobretudo sob a forma de contributos linguísticos ou culturais, ou então a propósito de lendas que alimentam a mitologia, nomeadamente de amores impossíveis entre cristãos e mouros e relatos de bravura e honradez nos combates pela Reconquista. Quanto ao Judaísmo, também do ponto de vista religioso é o que sai mais mal tratado: «Ao ritualismo formalista dos judeus e dos Romanos, Cristo opões a exuberância da vida afectiva.» (7)

O que não impede, sobretudo entre o 5.º e o 9.º, uma imagem do cristianismo também ela eivada de erros e simplificações. Na grande maioria dos manuais, o cristianismo parece surgir… do nada: «Durante o Império Romano nasceu na Palestina, uma nova religião que viria a difundir-se rapidamente: o Cristianismo.» (8) «Aos trinta anos, (Jesus) começou a pregar uma nova doutrina baseada na crença num único Deus (monoteísmo) e também na igualdade entre os homens.» (9)

Podia citar-se muitos mais exemplos destes, que revelam, ou uma ignorância dos autores, ou uma simplificação redutora que induz os alunos em erro. Com efeito, nem Jesus nasceu na Palestina – assim baptizada pelo imperador romano Adriano só mais de um século depois da morte de Jesus –, mas sim na Judeia, nem inovou no monoteísmo, o qual como se sabe já era apanágio do Judaísmo, religião na qual Jesus nasceu e permaneceu até à sua morte. Significativamente poucos são os manuais que se referem à origem judaica de Cristo…

Produto da ignorância, a religião está condenada: «No século XIII, as pessoas eram muito religiosas. Por todo o país, em qualquer aldeia, por mais pequena que fosse, se encontrava uma capela, igreja ou simples ermida (…) Mas naquela época, a ciência era muito atrasada. Confundia-se magia com conhecimentos científicos.» (10)

Esta atitude intelectual reflecte a perspectiva laicista presente no Ocidente europeu que evacuou a religião do espaço público. Retoma, para o ensino, a visão republicana tão bem expressa há cerca de cem anos por Afonso Costa (11) e reproduzida em numerosos manuais: «está admiravelmente preparado o povo para tal lei (De separação do Estado da igreja); e a acção da medida será tão salutar que em duas gerações Portugal terá eliminado completamente o catolicismo que foi a maior causa da desgraça da situação em que caiu.»

 

Esther Mucznik na revista Atlântico deste mês.

 

4 – Edite Correia Nunes e Maria Judite Dias, Acção e Aventura, História e Geografia de Portugal 5.º, vol. 1, Texto Editora, 2005, p. 67.

5 – Ana Rodrigues de Oliveira e outros, História 7.º, Cadernos de Apoio, Ficha 13, (“As religiões explicadas às crianças… e aos outros”, excerto de José Jorge Letria), Texto Editores, 2002.

6 – Ascensão Teixeira e outros, Língua Portuguesa 7.º, Texto Editores, 2005, p. 204.

7 – Pedro Almerindo Neves e outros, Cadernos de História 10.º, vol. 1, Porto Editora, 2006, excerto de Primeiras Notas de Filosofia, p. 99.

8 – Pedro Almerindo Neves e outros, Novo Clube de História 7.º, parte 1, Porto Editora, 2004, p. 130.

9 – Edite Correia Nunes e outros, Acção e Aventura, História e Geografia de Portugal 5, vol. 1, Texto Editores, 2005, p. 55.

10 – Fátima Costa e Alberto Marques, História e geografia de Portugal 5.º, Porto Editora, 2005, p. 97.

11 – Afonso Costa, “O Tempo n.º 12, 27/ 3/ 1911”, citado, entre outros, no manual de Júlio Coelho e Sebastião Marques, História e Geografia de Portugal, 6.º – Portugal: um presente com passado, ASA 2005, p. 80 e 81.