A religião nos manuais escolares: UMA VISÃO LAICISTA (I)
A consulta minuciosa de 80 manuais de História, Língua Portuguesa e Educação Cívica, entre o 5.º e o 12.º ano de escolaridade, constata uma imagem insultuosa do judaísmo e uma visão maniqueísta do conflito no Médio Oriente, onde Israel aparece sempre como o culpado. É a educação que está a ser dada às nossas crianças em pleno século XXI:
«Ser judeu na Idade Média europeia era tão incómodo como ser partidário de Yasser Arafat no Israel dos nossos dias.»
Fernanda Costa e Olga Magalhães, Com todas as Letras, Língua Portuguesa 9º, Porto editora, 2004, p. 146 (texto de Roby Amorim).
Não li esta opinião num jornal, não a ouvi na rádio nem na televisão. Encontrei-a num manual escolar de Língua Portuguesa destinado a alunos do 9º ano, a propósito (?) do estudo de Gil Vicente. Não é um exemplo isolado. Consultei cerca de 80 manuais de História, Língua Portuguesa e Educação Cívica, entre o 5.º e o 12.º ano de escolaridade, e em relação ao “estudo” do judaísmo constatei uma promiscuidade indecente com o conflito israelo-palestiniano, em paralelo com um desequilíbrio gritante na análise do mesmo: por exemplo, a propósito da barreira de segurança israelita ficamos a saber que «pouco mais de uma década após a queda do “muro da vergonha” em Berlim, a intolerância e o fanatismo obtêm no Médio-Oriente, uma vitória.» (1)
Mas a imagem do judaísmo não sai penalizada apenas pela comparação abusiva com os palestinianos de hoje. Uma parte significativa dos manuais veicula estereótipos baseados no velho antijudaísmo cristão medieval, que acreditávamos pertencer ao passado: «Podem resumir-se a quatro, as causas do anti-judaísmo em Portugal, no início do séc. XVI – os judeus enriqueciam facilmente de maneira pouco clara, sendo-lhes atribuída ganância e a usura; ocupavam profissões importantes em grande percentagem, o que dificultava às outras pessoas o acesso a elas; assumiam grande prestígio sócio-político, dada a sua cultura e a situação sócio-económica desafogada; eram fanáticos seguidores da sua religião, desrespeitando ao mesmo tempo os valores e costumes cristãos.» (2)
Mais uma vez, este é apenas um exemplo entre muitos. Abundam as referências à “ganância”, à “usura”, à “proverbial paixão pelo capital” dos judeus. Em contrapartida, o Judaísmo está praticamente ausente da história nacional. Desde a formação da cristandade ocidental e a expansão islâmica, até ao Portugal contemporâneo, raros são os manuais que evocam a presença milenar judaica – bem anterior à própria fundação da nacionalidade. Ausentes da história como agentes activos, os judeus estão representados nos manuais, essencialmente, como vítimas da Inquisição e do Holocausto, afinal, o único papel histórico que lhes é reconhecido com alguma empatia…
Confesso que não esperava uma imagem tão negativa do judaísmo nos manuais escolares. Mas a sua consulta acabou por ter em mim um efeito terapêutico. A nossa sociedade ocidental exalta a vítima como forma de se redimir da sua má consciência e dos múltiplos sentimentos de culpa de que está eivada… Compadecemo-nos dos pobres, dos escravizados, dos colonizados, dos oprimidos, de todas as vítimas. Em contrapartida uma vítima que deixa de o ser, que recusa esse estatuto, que se torna bem sucedida ou que tenta sê-lo, perde rapidamente a simpatia, ganha inveja e ressentimento. É por isso, que nos manuais escolares o judeu perseguido é alvo de simpatia, mas como ser livre e soberano é identificado como opressor. Num dos manuais, por exemplo, colocam-se em duas colunas paralelas exemplos de antisemitismo e de racismo. Como exemplos do primeiro cita-se «O Decreto alemão de 15 de Setembro de 1935 de salvaguarda do “sangue alemão”». Em paralelo, apresenta-se como exemplo do segundo: «a lei racista da Knesset contra a cidadania israelita a palestinianos que casam com israelitas.» Comentário final dos autores: «Racismo é sempre racismo, mesmo quando defendido por judeus.» (3) A mensagem para os alunos não podia ser mais clara: de vítimas do racismo, os judeus passaram eles próprios a racistas…
Esther Mucznik, na revista Atlântico deste mês.
1 – Célia Pinto do Couto e Maria Antónia M. Rosas, O Tempo da História 12, parte 3, Porto Editora, 2005, p. 69.
2 – Sofia Melo e Manuela Rio, A Casa da Língua 9.º, Porto Editora, 2004, p. 244.
3 – Natércia Crisanto e outros, Olhar a História 9.º, Porto Editora, 2006, p. 164.