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DER TERRORIST

"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.

Uma dúvida séria

por josé simões, em 27.04.07

 Paulo Rangel fez no “25 de Abril” o único discurso que precisava de ser feito. O discurso essencial: o discurso sobre o perigo em que hoje manifestamente está a liberdade. Não admira que não tenha vindo do dr. Cavaco. Nem que Sócrates, com a sua insuportável arrogância, o tenha resolvido arrumar como “bota-abaixismo”. Portugal sempre desprezou a liberdade. Nunca a pediu e não a reconhece. E, mesmo ao fim de trinta anos de um regime supostamente democrático, não a percebe bem. Ainda ontem, 26 de Abril, este jornal e o Diário de Notícias traziam em título a notícia de que o Governo publicou um “guia”, para incitar o funcionalismo à denúncia. Nenhum comentou esta aberração. Que o Ministério da Justiça fabrique de repente um exército de 700. 000 espiões não os comove.

Primeiro, o dr. António Costa inventou o cartão “5 em 1”, que permite a qualquer autoridade investigar comodamente a vida de qualquer pessoa. Não houve quem se ralasse com a ameaça e a indignidade da coisa. A seguir, as polícias passaram para a tutela directa de um secretário-geral (sob o eufemismo de “coordenação”) e o secretário-geral ficou sob a tutela directa do primeiro-ministro. Ninguém, ou quase ninguém, abriu a boca. Como ninguém, ou quase ninguém, abriu a boca quando se criou um Conselho Superior de Investigação Criminal, a que Sócrates fatalmente preside e a que pertence o procurador-geral da República. O país político gosta que o povinho ande vigiado.

 

E não gosta de jornalistas. Neste capítulo não faltou colaboração a Sócrates. Tanto o PSD como o PS (e não sei se o CDS) votaram a favor de uma Entidade Reguladora da Comunicação, com um estatuto constitucional ambíguo, destinada a meter a canalha na ordem. Mas parece que a entidade não chegava. O dr. Santos Silva foi mais longe e prepara agora, amoravelmente, uma “Comissão de Carteira” com poderes penais. Já não bastavam as pressões daqui e dali, já não bastava o servilismo oficial ou voluntário e a chantagem implícita ou aberta, era preciso o pau. Paulo Rangel não se enganou: existe um clima de “condicionamento” e “claustrofobia”, um clima de intimidação. E uma pergunta de que o primeiro-ministro e o dr. António Costa não se deviam rir como inexplicavelmente se riram: quer ou não quer este Governo uma democracia “musculada” e o geral conformismo da imprensa e da televisão? A dúvida é séria e merece uma resposta séria.”

 

Vasco Pulido Valente no Público de hoje.