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DER TERRORIST

"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.

25 de Abril à Direita (IV)

por josé simões, em 04.04.07

Valores e estratégias

 

O PREC, porém, não durou. E não durou pela resistência daquele país que as esquerdas menos lunáticas, com muita razão, sempre temeram. É verdade que das tropelias de 1975 sobreviveram o Conselho da Revolução, a Constituição e as nacionalizações. Mas o Conselho da Revolução não comandava as forças armadas, onde o novo Presidente da República, o general Eanes, restabeleceu a hierarquia conservadora. E em 1979, o PSD e o CDS obtiveram uma maioria revisionista, suficientemente forte para levar Eanes a confessar que partilhava a mesma ideia de sociedade. A AD sabia o que queria: um poder democrático livre de tutelas e uma sociedade mais autónoma do Estado. Perante a evidência da ruína revolucionária, teve um acolhimento entusiástico. Porque é que isso não foi aproveitado para a afirmação de um contraste claro com as esquerdas? Porque é que a direita, de que pouca gente se reclama entre os partidos do regime, continuou a ser invocada no debate político quase só como a esquerda a imagina: o lado negro da “reacção” e dos “poderosos”?

Por duas grandes razões, entre outras mais pequenas. O Estado-Novo insistira, durante anos, na ultrapassagem da dicotomia direita-esquerda, que considerava própria de um regime parlamentar, mas não de um regime “nacional”. Depois de 1974, a atitude típica à direita continuou a ser da negação de dicotomias doutrinárias, em nome dos valores consensuais de um “desenvolvimento” mais tarde enquadrado pela união europeia. À direita, onde se rejeitava a “luta de classes”, recusou-se também o confronto ideológico como mais uma perversa invenção das esquerdas, indigna de estadistas responsáveis.

Além disso, porém, havia uma questão de estratégia. O PS de Mário Soares, em 1975-1976, afirmara-se como partido maioritário em confronto com o PCP. Isso levou os partidos à sua direita a adoptar aquela que deveria ter sido a estratégia do PCP: entrar no poder pela mão do PS. O CDS foi o primeiro a aproveitar a boleia. O PSD também tentou, embora fosse demasiado grande para uma posição subordinada, como se viu em 1983-1985. De qualquer modo, enquanto o jogo foi esse, nunca conveio uma identidade de “direita” que impedisse a intimidade com o PS que, apesar das acusações do PCP, sempre quis ser de esquerda. O CDS refugiou-se nas ambiguidades da “democracia cristã”, e o PSD inventou uma “social-democracia” que nunca ninguém soube bem o que era. É sintomático que, depois de Sá Carneiro, o PSD tenha tratado as revisões constitucionais como um motivo para descobrir consensos com o PS, e não divergências. Entre 1985 e 1995, Cavaco Silva tentou chegar às reformas sem grandes controvérsias, em regime de concertação social e também de concertação ideológica. Lamentou que o PS tivesse votado contra 70% das suas propostas de reforma, mas evitou, muito diplomaticamente, tirar as mais radicais ilações. O mesmo no que diz respeito ao sentido da tutela presidencial de Mário Soares.

Em suma, as direitas não foram simplesmente vítimas de uma tomada de poder pelas esquerdas no dia 25 de Abril. Na diminuição ideológica das direitas, a revolução teve uma influência talvez inferior ao que é costume dizer. Mesmo a célebre “ditadura cultural da esquerda” não data da revolução, mas vem do Estado Novo, que por entre as entrelinhas da censura foi deixando os intelectuais de esquerda regularem largamente os consumos literários e artísticos. Se o 25 de Abril marcou alguma coisa a esse respeito, foi paradoxalmente o começo do fim dessa velha hegemonia intelectual das esquerdas. Entre outras provas, aqui estão os dois anos da Atlântico.

 

Rui Ramos, historiador, na revista Atlântico deste mês.