"Podem ainda não estar a ver as coisas à superficie, mas por baixo já está tudo a arder" - Y. B. Mangunwijaya, escritor indonésio, 16 de Julho de 1998.
Começou o spin nas televisões, disfarçado de "comentário", frente aos pés de microfone, também chamados jornalistas ou pivot de telejornal: António José Seguro tem uma ligação umbilical ao Sócras, o manhoso, o bandido, subentende-se. O taberneiro não tem nada a ver com o PSD e muito menos com Pedro Passos Coelho.
A verdade é que no semáforo da Av. de Roma com a Av. do Brasil em Lisboa há gajos em melhores condições a cravar tabaco aos automobilistas. Votaram nele e agora todo o mundo leva por tabela.
O taberneiro vale neste momento um milhão e trezentos mil votos, menos 100 mil que nas legislativas, e apesar de eleições diferentes a comparação pode ser feita porque ele é o partido e o partido é ele e é candidato a tudo, até a todas as câmaras municipais de Portugal continental e ilhas adjacentes, a avaliar pelos cartazes e outdoors. E a partir das zero horas do dia 19 de Janeiro de 2026 tudo o que vier por acréscimo é dele, por ausência de Luís Montenegro, primeiro-ministro e líder do PSD que o pariu, e por cobardia de Cotrim Figueiredo, que já sabe onde tem a cabeça, sempre soube. E andaram todos, comentadeiros e analistas, nas televisões, rádios e jornais, com análises buéeeee profuuuuundas sobre a morte do PS e vamos agora ver se não foi um avençado, sem perfil para o cargo que exerce, quem assinou por baixo a morte do PSD e com a sua sonsice entregou a liderança da direita a um populista chefe de um bando de genuínos anti-democratas, enquanto o PS recupera da morte decretada.
Quatro dias antes das eleições a Intercampus apresentava uma sondagem com o taberneiro a vencer a primeira volta, seguido de Marques Mendes e Cotrim Figueiredo, apresentada na homepage do Sapo pela ex comissária da direita radical no Diário de Notícias.
O taberneiro, que não queria o apoio das elites para nada, queria o apoio do povo e nada mais que o povo, uma hora antes do final da campanha estava em directo no telejornal da RTP1 a dizer que conta com o apoio de Passos Coelho para a segunda volta.
Cotrim ter dito que era homem para votar no taberneiro para depois dizer que não tinha dito o que todos ouvimos dizer, Freud explica, mas isso é areia a mais para a camioneta do pessoal do economez.
António Filipe tem exactamente o mesmo paralapié que o comissário que não é militante tem no Soviete das Bicicletas, outrora um blogue decente das esquerdas várias, e assim vão continuar até à irrelevância total e assaltos a palácios de inverno é coisa que já lá vai.
Todos os candidatos, e respectivas famílias, são escrutinados, mas o taberneiro não tem pai nem mãe e a pastorinha, dona da casa onde dorme, não tem passado nem futuro, não sabe falar nem tem pensamento político.
Marques Mendes, que ganhava dinheiro para dizer merdas semana após semana, sem contraditório, e a desdizer na semana a seguir o que tinha dito na anterior, passou as últimas horas da campanha a criticar quem ficou em silêncio.
Marques Mendes, que ia meter "um jovem" no Conselho de Estado, ler um Bugalho ou um Duarte Marques, apresentou como trunfo eleitoral o pior que o país político já teve, a tralha cavaquista, Cavácuo [não é gralha] incluído.
A RTP abriu a noite do rescaldo eleitoral a dizer que o taberneiro estava na missa. Foi-se confessar das mentiras que disse nas últimas semanas e do ódio que vomitou. A partir de agora começa do zero, é para isto que serve a religião.
Uma das boas notícias da noite foi a de que Marques Mendes - o pior que o 25 de Abril produziu: compadrio, amiguismo, promiscuidade, o interesse privado acima do interesse público, desapareceu. [E quando lá chegares manda saudades que é coisa que cá não deixas].
A questão que agora se coloca é: o que é que vai passar pela cabeça do Cotrim nas próximas semanas?
Entre um democrata e um anti-democrata Marques Mendes não sabe em quem votar. Pequenino até na hora da morte.
Entre um democrata e um anti-democrata Luís Montenegro também não sabe em quem votar. A sua área política perdeu, diz. A sua área política não é a democracia, quer isto dizer. A direita que anda com a boca cheia de Sá Carneiro.
O almirante, que jurou bandeira e a Constituição, diz que ainda é cedo para decidir entre o apoio a um democrata e ficar calado e deixar um saudoso de três Salazares à solta. O almirante afinal é um cabo sonso.
Andaram, alegados social-democratas, centristas, liberais, durante anos a alimentar a imbecilidade do "espaço não socialista", agora a disputa não é entre democratas e anti-democratas, é entre socialistas e não socialistas, a democracia que se foda.
O taberneiro reivindica a liderança da direita com os líderes da direita - Montenegro e liberais calados, de orelhas baixas e rabo entre as pernas. O "pensamento político de Sá Carneiro", dizem, todos os anos no dia da morte do saudoso.
No entanto ganhou o langonha, desculpem o meu inglês, mas fui criado perto das docas, em Setúbal, e na homepage do Sapo, agora gerido pela ex comissária da direita radical no Diário de Notícias, a foto é a do taberneiro a sorrir.
O fim da história. Afinal o Fukuyama tinha razão. Antes de tempo, noutros moldes, mas teve. Um governo de fanáticos esquerdistas dirigido à distância por uma alucinado da extrema-direita, ditador wannabe. Um bando de alucinados ao serviço de um louco imperialista. Um dia há-de ser feita a história de uma patética "esquerda" latino americana.
Andámos anos a ouvir a direita radical berrar que Manuela Moura Guedes tinha sido despedida da TVI por causa do Sócras para acabarmos todos a saber que afinal a Moura Guedes foi despedida pelo candidato da direita radical à Presidência, Cotrim Figueiredo. Não me venham dizer que o Cotrim despediu a Guedes por causa do Sócras...
João Cotrim Figueiredo foi acusado de "assédio sexual", Julio Iglesias também. Num instante trinta mulheres saíram em defesa de João Cotrim Figueiredo, que nunca vivenciaram ou presenciaram comportamentos inadequados, Julio Iglesias, sem se esforçar muito, é capaz de arranjar trinta e uma a dizerem que ele é um bom rapaz. Mas a questão não é essa, a questão é que entre o mulherio que deu a cara por João Cotrim Figueiredo não consta Mariana Leitão, líder da agremiação, nem Carla Castro, antiga vice-presidente da bancada parlamentar. Vale o que vale. "Y te empecé a querer, sin imaginarme qué podía perder".
Do único partido de classe com assento parlamentar; a RGA [reunião geral de alunos] que divide os actores políticos não em democratas e anti-democratas mas em "socialistas" e "não socialistas"; a seita que nas redes, em matilha - anónimos, conhecidos, menos conhecidos, bots, classifica o partido da taberna como "socialista". Bedtime for Democracy.
Agora que sabemos que o "liberalismo faz falta" e que o Cotrim afinal não disse aquilo que todos o ouvimos dizer, explicou-se mal, coittado, a questão que se coloca é: numa hipotética segunda volta entre Catarina Martins e Cotrim de Figueiredo ou entre Catarina Martins e Marques Mendes em quem é que votava o Partido Socialista de António Costa e Ferro Rodrigues que se empenhou em reeleger Marcelo deixando às pessoas com um mínimo de decência a tarefa de remeter o taberneiro para a terceira posição atrás de Ana Gomes? Não se incomodem em responder que isto sou eu a pensar em voz alta.