Tocou o hino, discursaram os deputados em representação dos partidos, discursou a presidente da Assembleia da República, discursou, pela primeira vez e quebrando o protocolo, o chefe do Governo e o chefe da facção:
No dia 25 de Abril, no dia da Liberdade, na celebração do dia que restituiu a liberdade aos portugueses, "de nada valem as eleições, de nada vale a democracia", pela boca de um presidente [com pê pequeno] na casa que simboliza a Democracia devolvida pelos capitães ao povo há 39 anos.
Miserável.
[Imagem "#25abril Os cravos à frente de Cavaco Silva caíram ao chão…", via]
"Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!"
Madrugada de 25 de Abril de 1974, parada da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém.
[Imagem de Carlos Gil]
25 de Abril de 1974 – 25 de Abril de 2013
[Na imagem aquele que é talvez o mais antigo graffiti de protesto da cidade de Setúbal numa parede da Rua Camilo Castelo Branco]
Além da maçada que é para o actual poder político [Presidente da República e Governo] celebrar a Liberdade, o Dia da Liberdade, e ouvir o povo olhos nos olhos, saudosos que são do respeitinho e da vénia com a espinha bem dobrada.
[Imagem]
Adenda: Se dúvidas houvessem de que o actual poder instalado não é representativo da vontade popular, a presidente da Assembleia da República fez questão de nos lembrar e confirmar.
Entre outras, "Donos da Liberdade" e "Donos do 25 de Abril", foram expressões inventadas, com o intuito de desvalorizar a real importância da data na História de Portugal e na vida dos portugueses, por aqueles que sempre pactuaram com a ditadura do Estado Novo, que não perdoam aos capitães o terem devolvido ao povo o poder de dizer de sua justiça, e a quem sempre fez muita confusão os macacos não continuarem todos arrumadinhos, cada um no seu galho.
[Imagem]
1974 – 2012
Sempre
[Na imagem Salgueiro Maia @ Largo do Carmo, Lisboa, 25 Abril 1974, fotografado por Rui Ochôa]
Onde se recupera um post antigo deste blogue:
Grândola Vila Morena ... o porquê a canção de Abril
«Conto esta história na primeira pessoa, porque é a narrativa de uma experiência de vida difícil de esquecer…
Há quem pense que foi a letra que fez do “Grândola” a canção escolhida para “senha de avanço” na noite de 24 para 25 de Abril de 1974, que foi o poema ou a figura de José Afonso, per se… mas não… se tudo isso pesou, e pesou decerto, a composição do Zeca tornou-se o símbolo da revolução dos cravos por um significado maior, que adquiriu menos de um mês antes. Foi num acontecimento em que participaram muitos portugueses, de forma espontânea, mas que passou relativamente despercebido na comunicação social de então, nesses tempos em que a Imprensa, para falar de certas coisas, tinha que fazê-lo “nas entrelinhas”…
Estava-se em Março de 1974.
A Casa da Imprensa organiza, no Coliseu dos Recreios, o “Primeiro Encontro da Canção Portuguesa”.
Quase não aconteceu, porque a necessária autorização nunca chegou. Segundo declarações de José Jorge Letria à Visão, trinta anos depois, “O regime já estava nitidamente em fase de implosão. Quiseram derrotar-nos não com uma proibição do Festival, mas com uma não-resposta. Até ao dia do espectáculo ainda não sabíamos se tínhamos, ou não, autorização. Por volta das 17 e 30 do dia 29, quando cheguei ao Coliseu, já havia muita gente à volta, e ao fundo da Avenida da Liberdade lá estava a polícia de choque… estava a desenhar-se ali um confronto!”
O ambiente no país era tenso: menos de duas semanas antes tinha ocorrido o golpe frustrado de 16 de Março, a censura dominava.
Eu trabalhava então como repórter free-lancer para o programa “Limite” da Rádio Renascença (o tal que tocou o “Grândola Vila Morena”) e fazia em média seis reportagens de exteriores por semana, com não mais que uma a passar as malhas da censura.
Nessa noite, fui ao Coliseu, armado de gravador e uma grande vontade de ouvir as vozes que os censores da rádio baniam.
O ambiente era quente, a despeito de uma primavera ainda fria… os bilhetes tido sido todos vendidos e houve quem ficasse à porta. O Governo fez deslocar para o Coliseu muitos agentes da ex-PIDE, que então se chamava DGS, misturados com os espectadores.
A primeira coisa que vi quando cheguei foram dois cavalheiros da censura a verificar as letras do que ia ser cantado – o visado era Adriano Correia de Oliveira, depois seguiram-se todos, sem excepção – o Zeca lá conseguiu ordem para cantar o Milho Verde e uma música alentejana que não pareceu perigosa aos senhores do lápis vermelho, o “Grândola”…
Do palco, a música abraçou um Coliseu com cerca de sete mil pessoas.
Ali estiveram Carlos Alberto Moniz e Maria do Amparo, Pedro Almeida, Fausto, Barata Moura, Vitorino, Adriano Correia de Oliveira, Zeca Afonso, Carlos Paredes, José Jorge Letria e Manuel Freire.
Tudo foi normal até à chegada ao palco do “cantor andarilho”. Zeca cantou o Milho Verde e a plateia pediu as canções que mais gostava… “Os Vampiros”, foi um grito que ouvi várias vezes.
Nessa altura, decidi sair dos bastidores e fui para a plateia, gravar tudo mais de perto.
José Afonso ia dizendo que não podia cantar o que o público queria… “Não pode ser, percebam… vamos cantar outra coisa”…
Foi então que se começou a fazer História.
Zeca cantou o Grândola. A meio, a plateia juntou-se-lhe, depois o resto do Coliseu, e também os artistas que tinham estado em palco – voltaram, deram-se braços, cantaram juntos, numa fila que enchia a boca de cena.
A canção estava no fim, por essa altura… e foi natural que nem chegasse a terminar, recomeçando agora a sete mil vozes!
Eu corria de pessoas em pessoa, recolhendo testemunhos que não conseguia ouvir, microfone encostado às bocas…
O som era avassalador, uma música simples, uma letra que todos sabiam, sete mil peitos em riste… até àquilo que foi a mais impressionante manifestação espontânea que assisti em toda a minha vida!
Já o Grândola ia em fins de segunda volta, aconteceu o inesperado…
… a certa altura, em vez de a música continuar alentejana, o próximo verso foi o primeiro do Hino Nacional – assim, sem pausa, sem transição, sem que ninguém tivesse dito nada… parece que foi um sentimento colectivo que sete mil pessoas tiveram!
Grândola Vila Morena transformou-se em Heróis do Mar e foi cantado da primeira à última estrofe, sete mil portugueses de pé a fazer vibrar a sala com o hino da pátria amordaçada, numa repentina liberdade assumida ali e então.
Nada poderia ter sido mais claro, nenhum grito faria mais sentido.
Foi um momento que ficou escrito em letras de memória para quem lá esteve, um momento inolvidável, uma pedra de História.
Tinha nascido a razão maior por que “Grândola Vila Morena”, menos de um mês depois, se tornaria a escolha natural para uma senha que iria abrir as portas a um pais novo!»
Pedro Laranjeira
Tolerância zero às provocações da polícia. Afinal de contas é o dia em que se grita "25 de Abril Sempre, Fascismo nunca Mais!".
O fim do regime de Muammar Kadhafi na Líbia foi "uma espécie de 25 de Abril"
[Imagem A Clown in the Hagenbeck, Wallace Circus, autor desconhecido]
Ver os capitães de Abril descer a Avenida da Liberdade com uma cauda de bandeiras e palavras de ordem esquerda-retro-kitch, os "donos" do 25 de Abril, não vai com nada. O original, porque se leva a sério, é [muuuuuito] pior que a cópia, daí o sucesso dos Homens da Luta. O Dia da Liberdade não é d(a)e Esquerda nem é d(a)e Direita, não é um dia de luta e reivindicação, não é o 1º de Maio, é uma celebração. Custa muito perceber isto? Custa. E é por isso que uns festejam o 25 de Abril e outros o 25 de Novembro. Até que a morte os una.
(*) - "a perda de confiança nos dirigentes políticos é bem mais perniciosa do que a dívida pública"
(Imagem "A Poesia Está na Rua”, Maria Helena Vieira da Silva")
«Precisávamos de um homem com a inteligência e a honestidade do ponto de vista do Salazar (...)»
¿Por qué no te callas?

O Banco Alimentar Contra A Fome, criado nos idos de Cavaco Silva primeiro-ministro, das caravelas carregadas de fundos comunitários como nos tempos do Brasil, vai ser condecorado no 25 de Abril, por Cavaco Silva Presidente da República.
Em Setúbal, nos idos da campanha para as presidenciais de 1976, durante uma noite alguém andou, de pincel na mão, entretido a fechar o E em O e a colocar um apóstrofo à frente do T nas pichagens “Otelo à Presidência” e “Vota Otelo”. Era verdade.
Ao “dono” do 25 de Abril só falta o popular-reaccionário “isto está pior que no tempo do Salazar”.
(Imagem)